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Maíra Leal

NATAL - RN
Cadastrado em: 20/06/2009

Minhas histórias são mais sobre como as coisas aconteceram comigo do que como eu aconteci para certas coisas; a primeira coisa que me aconteceu que teve influência fundamental na minha existência foi ter nascido filha do Antonio Leal e da Graça Leal, irmã da Manuela e do Pedro. Os meus pais são aquele tipo de pessoa que nasceram na década de 40 e que fatalmente atravessaram momentos impostantíssimos da história do Brasil - do lado esquerdo tenho que dizer - de modo que eles, os dois, militantes políticos ora particionados, ora sem partido, sempre foram adeptos de exercer a prática da teoria que eles pregavam. A outra coisa mais importante que me aconteceu foi ter nascido no Brasil. Ser brasileiro ofere ao indivíduo que nasce nessa terra uma perspectiva absolutamente distinta do mundo, o jeitinho brasileiro não é um mito, muito menos uma vergonha e filha de quem sou também me foi impossível não notar que no país mais receptivo do mundo também existem diferenças, especialmente econômicas, num lugar aos quais ela não pertencem: um fato de ser brasileira e Leal - em mais de um sentido - é ter consciência da pobreza. Ela me fez perder muitos argumentos sobre o que é particular e o que é público, uma longa conversação ainda em pauta, sempre em pauta. Eu não sei se nasci assim, o que não é inato é ambiental? pois bem, em 1992 saímos da idílica Tiradentes para a ensolarada Natal. O fim da minha primeira infância, da delicadeza e parte da inocência se deu numa viagem transcontinental de carro. Em Natal, eu aprendi a brigar, para me impor num grupo social que me hostilizava, especialmente na escola, para manter meus ideais - porque sim alguém de 9 ou 10 anos é capaz de ter ideiais - para quea totalidade do meu ser fosse respeitada. Ou seja, demorei anos até fazer amigos. Mas jogava futebol na rua, falava palavrão, respondia aos meus pais e se um excesso de racionalismo estragou um pouco, assim, com os meninos da rua, fui feliz. Mas não demorou para os dias nebolosos da adolescência - inda que meu ócio tenha sido produtivo - e nesses anos passei madrugadas inteiras vendo filmes e o resto do tempo pensando sobre eles. Não havia ainda (para mim Rita Lee a tua mais completa tradução) uma noção sobre que filmes eram bons e os que não eram, o que era arte e o que era intretenimento. Os filmes me faziam pensar e só. Pouco depois, com minha mais nova adquirida paixão, e o apoio dos amigos (dos meus pais, que são meus também) me ajudou a discernir qualidade em termos de cinema e eu passei a frequentar, assiduamente, as salas. As vezes eu desejava que filmes estreiassem e eles nunca entravam em cartaz, as vezes eu fingia ter idade o suficiente e comprava o ingresso inteiro para entrar escondido em filmes além da minha faixa etária. Ia ao cinema do centro da cidade, sozinha, para as sessões que tinham quatro gatos pingados. Não por acaso, veio, não por minha vontade, certamente a despeito dela, o vestibular. Ainda gostaria de ter tirado meu ano de folga. Queria estudar medicina, tinha curiosidade sobre artes, não tinha curso de comunicação e jornalismo era muito ruim e eu, finalmente, acabei indo estudar filosofia. Depois de estudar filosofia nunca mais quis ou pude argumentar, estive pensando nos últimos anos e ainda não cheguei a uma conclusão sobre os pontos negativos e os positivos. Filosofia certamente intensificou minha seriedade, minha melancolia. Mas entendi o que é hipocrisia e se a maturidade aos poucos passa a fazer protagonista nessa farsa, há algo de filosófico nisso. Lembra daqueles pais? Aqueles revolucionários, não pararam no tempo, enquanto a minha vida lupeneava pelos céus eles estavam fazendo alguma coisa e eu não pude me omitir do que acontecia - pensar que a revolução tem que acontecer na sua própria casa é realizar a revolução na sua própria casa. (Manual Leal p.6 § 2º) - então eles montaram uma ONG chamada Centro de Cultura da Vila de Ponta Negra . A partir daí, eu tive trabalho certo para todas as minhas horas vagas e para as outras e outras e outras. Meu pagamento não veio muitas vezes em valores monetários, mas o Centro me permitiu - especialmente através do Ponto de Cultura Sons da Vila, muitos cursos, oficinas e conversas e nesse tempo eu aprendi muito e aprendi a trabalhar com aquilo que eu mais gostava, com filmes e assim, mesmo formada professora da filosofia e permanecendo pensadora como sempre, eu acabo metida mais em argumentações teóricas sobre o pote e a geléia do que outras coisa - ou seja, a mídia e a informação) e me realizo escrevendo, fazendo vídeos e trabalhando com os projetos do Centro na área audiovisual. Antes que eu me esqueça: a outra coisa que me aconteceu, eu nasci irmã da Manu, do Pedro e do Gil. A irmã mais legal que me deu o privilégio de ouvir só o que me interessava com enormes fones de ouvido. o irmão mais inteligente que me ensinou a tocar violão, ler, jogar RPG. O irmão que mais tenta me ensinar, a pessoa mais construtiva e capaz de criar que eu conheço que tenta me ensinar e ficar desencanada, as melhores e mais satíricas tiradas.Essa é a história de sobre como as coisas aconteceram comigo, o que aconteceu com as coisas fica pra outra. 

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