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Descrição
Dia 19 de Março de 1935, na Ilha de Moçambique, em Nampula, nasce Lília Maria Clara Carrière Momplé. Passam hoje 23 anos desde que lançou seu primeiro livro, intitulado Ninguém Matou Suhura, pela Associação dos Escritores Moçambicanos, em 1988. Pelos anos 80 do século passado, uma jovem macua, influenciada pelas histórias que a avó contava de heróis - que eram muitas vezes criaturas frágeis, ao contrário dos típicos poderosos. A jovem que se apaixonou pelas poesias de escritores portugueses, como Eça de Queirós e Fernando Pessoa, viu nas leituras dos versos do primeiro escritor moçambicano, a retratar personagens africanas como protagonistas na poesia, o poeta moçambicano José Craveirinha, a motivação intrínseca necessária para tomar a decisão de se tornar escritora.
Custa-lhe bastante a versatilidade da vida de agente literária-escritora. Confessa não fazer marketing dos seus livros. Apenas escreve e deita-os cá fora porque, a seu ver, o escritor deve ser aquele que escreve, publica e nada mais. Mas esta capacidade de escrever não vem à toa. Embora tendo um dia-a-dia muito agitado, nada a impede de escrever. Porém só escreve sobre aquilo que realmente a impressiona, de tal modo que necessite de partilhar alguma carga. É nesse ambiente que nasce o Neighbours: o impacto da morte de sua colega do Ministério da Educação e do marido, na África do Sul. A obra “Os Olhos da Cobra Verde”, pela colecção Karingana, surge dois anos após ser nomeada secretária-geral da Associação Moçambicana de Autores em 1997, cargo que desempenhou até 2001.
Hoje em dia é uma mulher que tem viajado bastante. Está constantemente a ser convidada a participar de conferências em países da África, América e Europa. Mas pouco se tem exposto no seu país para falar dessas andanças. Considerada pelos medias como uma escritora de fácil trato, carrega uma idade que, mesmo assim, não consegue tirar-lhe os traços duma macua típica. É uma escritora de reconhecido mérito, com livros traduzidos por grandes editoras, como a Heinemann/MacMillan. Frequentou o Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa e terminou com uma licenciatura em Serviço Social. Foi professora durante vários anos e funcionária da UNESCO, por isso muitos dos temas das suas narrativas focam a educação, bem como os papéis tradicionais das mulheres e as expectativas que as acompanham na sociedade, as dificuldades que elas enfrentam. Ela enfatiza questões relacionadas com a raça, classe, género e diferenças de origem étnica, talvez porque sua descendência familiar seja uma mistura de elementos étnicos: macua, francês, indiano, chinês e mauriciano.
Das variedades na linguagem à convergência de lugares, nota-se no percurso dos seus livros o uso de algumas expressões em línguas nacionais, trazendo, de algum modo, uma certa originalidade. “Ninguém Matou Suhura” é uma obra composta de cinco contos; são estórias que ilustram a história, relatadas mais por quem as viveu e as sentiu na pele do que por uma alma feminina que nos transmite, em cada parágrafo, a aflição de uma mãe que vive o calvário de ver seu filho atirado aos bichos. Que não seja só por isso, até porque a esta obra, mais do que uma denúncia e desabafo dos macabros acontecimentos da era colonial em Moçambique, vem carregada de uma energia que a leva a renovar-se todos os dias, isto é, ler “Ninguém Matou Suhura” é ter em si o poder da escrita, e em mão uma verdadeira narrativa realista com dimensão única entre nós.
Este livro é a consagração, logo a primeira, de Lília Momplé como uma verdadeira contadora de histórias em volta da lareira – Xitiku Ni Mbaula. Além da objectividade da sua obra e da eficiência no domínio da palavra, não deixa de criar uma convulsão para, antes de nos passar a mensagem, fazer com que participemos das suas emoções. Ilustrar a história através deste livro foi a chegada em peso de uma mulher nas artes escritas, mas de um jeito mais atrevido, ao ter se pautado pelos contos. No primeiro conto, “Aconteceu em Saua-Saua”, o assunto principal é o suicídio de um homem chamado Mussa Racua, que, por não ter conseguido atingir a meta dos oito sacos de arroz exigidos pela administração colonial como pagamento de imposto, depois de longas jornadas à procura de ajuda na vizinhança, ficou inconformado de perder a esposa e, para se livrar do drama das torturas, preferiu pendurar o pescoço numa corda e balouçar-se eternamente numa árvore.
Destaca-se neste conto a tamanha descrição de cada acção do personagem. Depois desta inquietante introdução na obra, que nos tiraria um minuto de silêncio e de intensa dor, por se encontrar autênticos sinais da brutalidade, vem de seguida o conto “Caniço”, que lhe valeu o prémio da Novelística (João Dias) no Concurso Literário do Centenário de Maputo. Em dezembro de 1945, em Lourenço Marques, actual Maputo, num pequeno povoado constituído mesmo nas barbas da cidade, chamado Caniço, o rapaz de nome Naftal, com 17 anos de idade e órfão de pai, vive um drama – miséria. E, porque está mesmo num bairro aventurado numa cidade onde reside e reina a burguesia, suporta o peso de chefiar, por ser o mais velho dos irmãos, uma família composta por seis elementos.
“Ninguém Matou Suhura” nos remete a uma viagem sem retorno, sobretudo pela forma activa em que se descreve os acontecimentos, levando-nos a uma constante actualização dos acontecimentos. Esta obra foi escrita por alguém cansado da opressão, da impunidade, da injustiça prevaricada por uma raça branca de estrangeiros, que já se tinham tornado donos de tudo. Falo dos portugueses e dos fatos que a autora ilustra, datados de junho de 1935 a abril de 1975. Suhura, personagem principal deste conto, relata um acontecimento de novembro de 1970, quando é uma adolescente de quinze anos de idade. É analfabeta, órfã de pai e mãe, e extremamente pobre. Vive numa palhota na Ilha de Moçambique com a sua avó desde a morte da mãe. À margem, um homem de quarenta e oito anos de idade e casado, da Ilha de Moçambique, ocupa simultaneamente a posição de administrador e presidente da Câmara.
Numa manhã tranquila, em que vai circulando pelas ruas, o administrador vê a adolescente e, encantado com a negra alegre que esta era e com a humildade do seu jeito, decidiu que a queria ter, usando da sua força. Estamos no centro do furacão, com o peito aquecido. Lília despeja tudo, ou melhor, o que seria tudo, porque as confissões continuam, não só ao longo da obra, mas em outras estórias que a autora conta noutras obras. Aguardamos, ainda, um livro prometido numa entrevista, há alguns anos atrás, sobre uma história de amor entre o meu avô e a minha avó. Mas esta é a história de uma macua negra e de um francês, cônsul da França na Ilha de Moçambique, na época de Mouzinho de Albuquerque.
Fontes bibliográficas: QUIVE, Eduardo; As lágrimas de um negro em Ninguém matou Suhura, Kuphaluxa, Maputo, documento captado em 19 de setembro de 2011; WIKIPEDIA, Lilia Monplé, Documento capturado em 16 de Novembro de 2011; Noticias online, Lilia Monple em entrevista, Maputo, 23 de agosto de 2006
Helga Rita Custodio Languana, estudante do 3º ano do curso de Medicina, vive na cidade de Maputo, em Moçambique. É membro do Movimento Literário Kuphaluxa em Maputo, foi uma das classificadas do Prêmio Poetize 2012 no Brasil. A nível local, concorre para o concurso literário Maria Odete de Jesus, edição 2011 da ISPU.
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Texto premiado, recebeu Menção Honrosa e foi publicado no livro 'Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus de Literatura, em 2011 - 7ª Edição. São Paulo, Brasil: Giz Editorial, 2012.
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VALDECK ALMEIDA DE JESUS, 46 anos, jornalista, funcionário público, editor, escritor e poeta. Embaixador Universal da Paz, Membro da Academia de Letras do Brasil, Academia de Letras de Jequié, Academia de Cultura da Bahia, Academia de Letras de Teófilo Otoni, Poetas del Mundo, Fala Escritor, Confraria dos Artistas e Poetas pela Paz e da União Brasileira de Escritores. Publicou “Memorial do Inferno: a saga da família Almeida no Jardim do Éden”, “Feitiço contra o feiticeiro”, “Valdeck é Prosa e Vanise é Poesia”, “30 Anos de Poesia”, “Heartache Poems”, ”Yes, I am gay. So, what? – Alice in Wonderland”, dentre outros, e participa de mais de 60 antologias. Organiza e patrocina o Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus de Poesia, desde 2005, o qual já lançou mais de 600 poetas. Colabora com os sites Favas Contadas, PressReleases, Artigonal, Web Artigos, Recanto das Letras, Portal Literal, Portal Villas, Pravda, Zona Mix, Gay.Com, Observatório da Imprensa, PodCultura, Overmundo, Comunique-se, Dzaí, Difundir, Jornal do Brasil, Só Artigos e À queima roupa. Tem textos divulgados nas rádios online Sol (Diadema-SP), Raiz Online (Portugal) e CBN (Globo). Site: www.galinhapulando.com
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Autora: Helga Rita Custodio Languana
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Lília Momplé - escritora moçambicana
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