Miniatura

Descrição
Toda noite, quando a roda de ciranda lá vai terminando, Lia de Itamaracá puxa um côco.
Ajoelha, ajoelha!
Ajoelha no colo de Iaiá!
Ajoelha, minha gente, ajoelha!
Ajoelha no colo de Iaiá!
No meio dele ela vai citando os que estiveram com ela naquela noite. Músico por músico ela diz o nome, o pessoal que trabalha no bar também, seus amigos, parentes e ainda aqueles que se destacaram em algum momento durante a festa e ganhou, da boca deIa, o seu merecido apelido. Já ouvi vários, dentre eles: pirráia, caboclo, neguinho, baiana...
Neste ultimo sábado ouvi pela primeira vez ela cantar meu nome.Jamais esperei ouvir meu nome entre as letras da despedida, foi uma surpresa, tanto que me emocionei.
Ouvir meu nome cantado por Lia é de certa maneira me ver incerida no universo dela. Se engana quem acha que é simples. Lia é extremamente reservada, com quem não conhece, não tem assunto, fala pouco, se aquieta. Mas quando se sente em casa fica à vontade em contar suas estórias, cantarolar a esmo suas canções, soltar suas ironias, sorrir, sorrir, sorrir.
Essa mulher grande e séria às vezes parece uma criança. Canta o que gosta e como gosta, não perde tempo em aprender o que não lhe diz respeito nem aquilo que não lhe toca. Será que ela sente o arrepio no braço?
Um dia desses lhe mostrei um samba.Perguntei sobre o compositor e ela não o conhecia. Lhe expliquei quem era o moço e pedi para que ouvisse O mundo é um moinho e ela silenciosamnete atenta, ouviu no meu mp3, a canção de Cartola.
No final chamou Dulce e Biu e comentou: 'Ouvi, parece um balada, um bolero...'
Dulce e Biu sorriam dividindo o fone.
'É aquele, como é mesmo o nome? Cartola!' dizia Dulce. 'Eu conheço! É linda...' suspirava Biu.
Foi quando eu perguntei a ela se cantaria essa música no espetáculo que estamos ensaiando.
Ela docemente me respondeu: 'Não...isso aí não entra na minha cabeça, não. É arrastado demais!'
Eu insisti: Lia, essa música com a sua voz ficaria ainda mais
Canal
Licença
Sistema de Origem
PENC
Autor/a
Descrição
Obra de Terreiro.
Residência Artística contemplada pelo prêmio Interações Estéticas da Funarte entre os meses de janeiro e julho de 2009 no Ponto de Cultura de lia de Itamaracá.
Cinthia Mendonça.
Mineira radicada no Rio de Janeiro,tem experiência em dança, formou-se em direção teatral pela escola de comunicação da UFRJ. Desenvolveu projetos na área de vídeo, performance e intervenção urbana, participou de importantes festivais como o Riocenacontemporânea e Recine.Recentemente foi contemplada com o prêmio Interações Estéticas-Residências Artisticas em Pontos de Cultura da Funarte. Desenvolve, desde então, o projeto Obra de Terreiro no ponto de cultura de lia de Itamaracá.
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cinthia mendonça
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Lia de Itamaracá

