Descrição
ao crack
sento-me, antônimo de mim,
nas pedras desse meio-fio abisso:
antônimo, anônimo, afônico,
sento sem teto,
sento sem tetas,
e pra que tetas, se já não tenho língua?
nem boca,
pro meu pão agora outro,
duro como essas pedras,
de outro destino intestino,
um destino cala-fundo,
um nunca-mais destino.
de ontem eu já não sei;
dele só restou algo que lembra um rosto,
só sobrou soslaio do olhar,
só me sobrou noite atônita
de estupidez do dia,
embriagada de bebida primitiva-
mente contemporânea,
uma noite que me distancia das palavras;
uma noite, já não sabia de nada.
(aliás, o que é que eu sabia?)
me restou a calçada rouca,
paralítica,
infelizmente surda calçada,
calçada insone,
onde não-durmo
perto das mesas cheias,
catando nessas sombras bípedes
uma lembrança de mim:
nas risadas alheias,
nos medos das moças,
nos rostos que ainda existem,
a descascar promessas:
eles não são tão diferentes de mim,
à sua maneira:
eles não sabem me olhar,
e eu não quero me olhar.
um abraço eu roubaria da memória,
mas vivo no presente,
como os animais;
o amor me tiraria da sarjeta,
mas quando o tive não podia saber,
como as pessoas:
o amor e o abraço são agora
um casal bêbado
esfregando a madre de deus,
o amor é essa taça sem face de amigo,
o abraço é uma pedra no rio
(qual o nome desse rio?),
um rio que não lava pesares.
amor-verdade-eterna, meu amor cristalizado:
enfim, sós, eu e meu amor de pedra,
amor de pedra antônima,
talhada,
dos meios-fios precipícios.
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Sistema de Origem
PENC
Autor/a
Descrição
nascido em recife.
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