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Desde que a minha prática de ensino em filosofia terminou, sustento a tese de que todo o ensino institucionalizado é pedante, e que qualquer tipo de educação que se pretenda libertadora deveria renegar a função da escola, isto é, da “educação” para a constituição de uma sociedade mais justa. Primeiramente, gostaria de dizer que tomo como “ensino institucionalizado”, todo o tipo de ensino que tem como eixo sustentador o Estado, tendo em vista que, esse ensino nada mais faria do que legitimar uma série de discursos que servem muito mais para conformar os alunos a uma vida em sociedade, pautada por leis criadas por políticos profissionais que fingem agir conforme a “razão do povo”, razão essa que se curva a qualquer peça de retórica barata, pois convence na medida que promete.
Ora, pedantismo para mim é não tomar as rédeas de sua própria vida, é abrir mão de agir como um ser político, para se afogar em conteúdos, que mais nos ofusca a visão do que nos faz enxergar em nós mesmos o poder de transcender a mediocridade da vida cotidiana. Michel de Montaigne, filósofo francês do século XVI, define o conhecimento pedante como aquele que nos torna mansos, corcundas, que ostentando o conhecimento apenas como um adorno, fala demais daquilo que não tem utilidade para a vida prática - muito do que se faz em filosofia hoje em dia, talvez pudesse ser classificado como pedantismo, mas isso não vem ao caso. O que serviria então para a vida prática? É uma resposta difícil, pois preparar os alunos para melhorarem de vida, incluirem-se em uma “sociedade mais justa”, em si, já é um preparo para a vida prática; entretanto, essa “vida prática” precisa ser relativizada, ela está inserida em um determinado contexto, nesse caso, no nosso contexto, prepara apenas algumas poucas pessoas e os outros, a maioria, ficam a margem esperando ou torcendo pelo fracasso daqueles poucos, ou seja, viver bem para alguns ainda implica na impossibilidade de uma vida boa para outros. Portanto, a formação dos alunos, que desde o início da escola já é pautada na quantificação, na produção, na competição, já afirma que somente poucos vencem: os melhores. Ora, se somente os melhores vencem, se dão bem na vida, o que resta para os piores? Podemos ver, com isso, que o discurso que diz que a escola prepara seres humanos para uma vida em sociedade mais justa é uma farsa, pois ainda se fundamenta no sucesso e no fracasso.
O próprio movimento de um aluno, problematizando essa situação, a sua relação com a escola, se questionando o porquê de haver um professor em sua frente proferindo verdades, para mim, é um movimento de quem, ao renegar a função da escola, abre mão de ser pedante, apenas se atrevendo em ir além… Problematizar a sua própria condição de aluno e a utilidade do conhecimento - o conteúdo da escola - para a vida, já é uma fuga do pedantismo.
Essa fuga do pedantismo, entretanto, não pode ser fruto de uma conscientização de um professor, como se o professor tivesse iluminado a cabeça do seu aluno, muito pelo contrário, deve ser um movimento de alguém que não suportando uma determinada situação, se põe contrário, nega para afirmar a si mesmo - a afirmação de si mesmo é a constante da vida. Portanto, ao meu ver, é preciso que notemos essa crise da educação, dos alunos que “bagunçam”, como a negação do velho e a afirmação do novo. Talvez uma outra racionalidade, uma outra maneira de lhe dar com as coisas esteja surgindo; é uma crise de valores sim, mas de pessoas que tiveram a coragem de questionar e ir além desses valores que sempre foram dados como verdadeiros - os jovens, os alunos, se deram ao luxo de questionarem a Verdade e quem somos nós para negarmos isso? Portanto, ao negar a instituição escolar, os alunos estão negando o pedantismo, pois pretendem transcender os limites das “quatro paredes do conhecimento”, não querem carregar aquilo que para nada serve, e estão instituindo uma outra maneira de lhe dar com a educação - para os problemas que teremos não há soluções prontas, basta deixarmos os nossos pedantismos de lado e vivermos a crise sem teorias a priori, que nada mais são do que preconceitos genéticos que habitam o nosso milenar sangue cristão.
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O Ponto de Cultura Na Quebrada é gerido pelo Comitê de Resistência Popular, Movimento Hip-Hop Organizado Brasileiro e Ação Periférica na Comunicação. Atualmente trabalha com edição de áudio para rádio comunitária Quilombo FM. Além disso, o Ponto de Cultura tem um programa semanal na Rádio Quilombo Fm chamado "Ronco do Bugio". Disponibilizamos os programas para download em nosso blog.
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