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Descrição
A filosofia de Nietzsche é tida como uma crítica radical à cultura ocidental, cultura que, segundo ele, é fundada sobre bases metafísicas que legitima-se a partir de um julgamento sobre a vida. Esse julgamento, segundo ele, não é imparcial, é sempre de uma determinada perspectiva; sendo assim, conceitos como “bem” e “mal” por exemplo, fundados a partir da reflexão de um filósofo jamais representariam algo universal, isto é, algo válido para todos os homens em todos os tempos, o que para o filósofo alemão nada mais seria do que uma típica doença crônica da filosofia: a pretensão de se colocar na perspectiva da eternidade1. Nesse sentido, para Nietzsche, a reflexão moral de qualquer filósofo representaria apenas uma forma de vida, a afirmação de um modo de ser, que deve ser pensado dentro do seu próprio contexto; portanto, a tarefa filosófica por excelência seria analisar a teoria moral de um filósofo a partir de algumas questões: “A que moral ele quer chegar? Que modo de vida ele quer afirmar? Que forma de vida ele levou?”2.
Essa tarefa posta por Nietzsche à filosofia, tornaria a psicologia3 não só uma ferramenta, mas um elemento essencial para a realização de seu projeto. Ainda assim, contudo, fica implícito que Nietzsche não quer pensar a psicologia como uma ciência tal como hoje conhecemos, muito menos pensar que esse tipo de reflexão tornaria a filosofia desnecessária; não obstante o filósofo ter se vinculado às idéias positivistas em um determinado momento de seu pensamento. A filosofia, para ele, precisaria sim de um antídoto anti-metafísico, que a desvinculasse de idéias como absoluto, coisa em si, alma, mundo inteligível, etc; visto serem criações filosóficas, que não podem ser postas a partir da racionalidade humana, pois ela é essencialmente parcial, diz sempre respeito a uma perspectiva, a um modo de vida4, que por ser apenas um modo, não pode ser universal. Com isso, parece que a psicologia teria, para o filósofo alemão, a função de avaliar os comportamentos quase sempre infantis e pueris5 de todo o filósofo que se colocou para além da experiência sensível; colocando-se como um sarcástico e irônico psicólogo, que anuncia: “Vejam só, tudo isso não passa de um devaneio de uma razão em sua menoridade, coisa de criança6“.
No capítulo de “Além do Bem e do Mal” intitulado: “Nós, os eruditos”, Nietzsche faz uma crítica a cultura de sua época e ao espírito cientificista, denunciando que a filosofia estava sendo engolida pelo enorme edifício das Ciências, tornando a filosofia apenas um estágio anterior ao estágio positivo7, ou seja, a filosofia seria apenas uma passagem, um hall de entrada para aquele enorme edifício. Assim, Nietzsche propõe que o filósofo deveria buscar uma maneira de se afirmar diante desse espírito objetivo, se colocando não como uma base da ciência, mas um determinado tipo de reflexão que colocasse a própria ciência e o espírito objetivo em questão - se colocando para além dela, o que seria uma tarefa difícil que exigiria grande esforço filosófico, tendo em vista que
O edifício das ciências atingiu altura e dimensão tremendas, e com isso cresceu também a probabilidade de que o filósofo se canse já enquanto aprende, ou se deixa prender e “especializar” em algum ponto: de modo que jamais alcançará a sua altura, a partir de onde seu olhar abrange tudo em torno e em baixo. Ou chega demasiado tarde lá em cima, quando já passaram seu momento e seu vigor; ou chega debilitado, embrutecido, degenerado, de forma que seu olhar, seu juízo global de valor já não significa muito. Precisamente a finura de sua consciência intelectual o faz talvez hesitar e atrasar-se no caminho; ele teme a sedução de tornar-se um diletante, criatura de cem pés e mil antenas, sabe muito bem que quem perde o respeito por si mesmo já não pode mais, também como homem de conhecimento, comandar, conduzir (…). (Idem, p. 95)
Ora, fica claro aqui que Nietzsche traça um perfil psicológico do filósofo diante do espírito objetivo do seu tempo, dizendo que diante da tarefa de lhe dar com a ciência há tamanhas dificuldades: uma é cansar-se, visto que a ciência se dá em uma imensidade de ramos e especializações que tornam “impossível” uma visão de totalidade diante dela, um juízo global, como ele mesmo diz; e outra que diz que quando um filósofo consegue se colocar acima do edifício da ciência, ele já perdeu todo o potencial juvenil e criativo da filosofia, de forma que toda a ação diante desse edifício seria somente contemplativa e, portanto, fraca e cansada - contemplação significa covardia. Entretanto, fica evidente aqui que a filosofia está totalmente vinculada à moralidade e que as nossas posições diante das coisas para serem afirmativas, precisam ser efetivas, isto é, afirmar-se na vida. Destarte, não parece que Nietzsche quer propor uma guerra contra a Ciência, mas sim, colocar uma questão de maior amplitude, dizendo que a ciência, assim como a filosofia, seria apenas uma interpretação do mundo: o mundo transfigurado em mundo humano. Seria tarefa do filósofo, portanto, refletir sobre a vida e o valor da vida (Idem, p. 96), não de maneira meramente contemplativa, mas como que um antropólogo que ao falar dos homens não “vê de longe”, ele sente as angústia e estranhamentos no próprio corpo; seria essa a crítica quando Nietzsche diz que a filosofia não pode se reduzir a uma “teoria do conhecimento”: a uma reflexão sobre as nossas possibilidades de conhecer, pois isso seria abrir mão de viver e abster-se contemplativamente - a solidão do filósofo em sua torre de marfim.
A crítica de Nietzsche se voltaria, em relação a ciência, ao impulso objetivista dessa, que de alguma forma traria alguns avanços pois se voltaria para as coisas no mundo, a interpretá-lo a partir da própria experiência, sem precisar fundar-se em uma subjetividade anterior, aos moldes de Descartes que precisa provar que pensa para poder dizer que as coisas existem no mundo. Assim, para o filósofo alemão
O homem objetivo é de fato um espelho: habituado a submeter-se ao que quer ser conhecido, sem outro prazer que o dado pelo conhecer, “espelhar” - ele espera que algo venha e se estende com delicadeza, para que nem mesmo os passos leves e o deslizar dos seres espectrais se percam sobre a sua pele. O que lhe restar ainda de “pessoa” lhe parece casual, não raro arbitrário, com freqüência perturbador: de tal modo se tornou reflexo e passagem de formas e acontecimentos alheios. Às vezes volta o pensamento para “si”, com esforço, de maneira freqüentemente errada; confunde-se facilmente com outros, equivoca-se quanto as próprias necessidades e apenas nisso é tosco e negligente. (Idem, p.98).
Nietzsche afirma que o homem objetivo neutraliza-se na medida que se torna “manso” na relação de conhecimento, visto que ele conhece o objeto de conhecimento a partir de como o objeto se reflete nele, ou seja, o relação de conhecimento não é afirmativa pois apenas interpreta o mundo sem instaurar nada nele. O cientista acredita que pode conhecer tudo através do seu método, porém, todo o conhecimento que ele toma pra si, se dá na tranqüilidade daquilo que ele próprio pode conhecer, ou seja, quando se olha naquele espelho, ele apenas vê o que quer ver. Assim, o homem objetivo seria como que um operário do conhecimento, que trabalha sem uma vontade própria, um escravo do seu senhor: um método para chegar à Verdade. Esse tipo de homem, ainda vinculado à idéia de que há uma verdade a ser descoberta no mundo, difere daqueles filósofos metafísicos somente do fato de não postularem idéias ou abstrações baratas; não obstante isso, eles passam a perder-se em um ideal metodológico que passa a constituir aquilo o que eles são: diversos cientistas pensariam iguais, pois teriam um método em comum; portanto, os cientistas, os homens objetivos, mesmo sendo “eruditos”, permanecem no espírito de rebanho.
O filósofo alemão, como podemos perceber, não dirá que os juízos sobre a Ciência são falsos ou verdadeiros, não é essa a questão, o que importa para ele, voltando as questões iniciais do texto, “a que moral eles querem chegar?”. Se por um lado, os homens objetivos se tornam o rebanho e, portanto, perdem sua singularidade; por outro lado, os filósofos, tais como Kant, Hegel, Platão, Schopenhauer, que nada mais são do que “crianças filosofando”, por não terem ido a fundo e terem postulado uma verdade transcendente por negação do sensível, ainda são personalidades, singularidades, ou seja, refuta-se o sistema hegeliano, mesmo assim, Hegel permanece. Quero trazer com isso, que o homem objetivo, vinculando-se a métodos com fins de descobrir a verdade, perde toda a sua singularidade e pertence a uma massa de intelectuais, um rebanho apenas acima do povo, visto que em uma hierarquia dos conhecimentos, eles estariam acima; mas esse acima, seria apenas um mero refinamento da mediocridade.
Nós, os eruditos? É uma questão interessante para se colocarmos pois diante do estatuto do nosso conhecimento, o filosófico, o termo erudito é quase que um sinônimo aplicado ao filósofo; contudo, se pensarmos na idéia de Nietzsche, do homem objetivo, o erudito, podemos pensar que o que fazemos em filosofia hoje em dia nada mais seria do que fazer parte do Edifício das Ciências. O filósofo8 se torna especialista, não tem um juízo global diante de todo o conhecimento, ele não fica cansado, ele já é cansado - não é à toa que a vida contemplativa é o ideal de qualquer filósofo. Além disso, a filosofia “precisa” constantemente se afirmar para além do empírico, para poder constituir o seu próprio ramo de saber: um lugar inabitado; e as outras ciências, por outro lado, precisam constantemente se emancipar de qualquer ligação com a filosofia, a filosofia seria para elas uma doença que ninguém quer pegar. Assim, a filosofia em grande parte se transformou em uma certa “teoria do conhecimento”, sempre voltada para as condições de possibilidade da nossa vida cognitiva. Entretanto, não me parece que isso poderia ser diferente, pois soa com muita ironia pensar em ser como um filósofo enciclopedista do século XVIII, aquele tipo homem - talvez muito mais criativo que a gente -, que cria um mundo para si e dentro desse mundo cria um sistema de regras e significados para explicá-lo, pois toda a nossa imaginação e potencial criativo se perdeu no ideal de objetividade - com um método não precisamos criar mais nada.
A reflexão de Nietzsche, portanto, anuncia o nosso tempo, voltado para métodos objetivos e a uma crise na filosofia, que necessita constantemente se afirmar para provar a sua utilidade, coisa que raramente acontece - não é raro alguns filósofos dizerem que a filosofia não tem utilidade e se regozijar disso. Nós, filósofos? Se torna uma questão muito sarcástica, que nos deixaria em sérios apuros. A filosofia necessita de um “futuro” tão distante. Nietzsche o anunciou há aproximadamente 122 anos atrás e provavelmente muitos ainda irão anunciar. Assim, para finalizar, propomos uma última questão: Será possível em algum futuro novos Hegel, Kant, Nietzsche, Descartes, Platão e Heidegger? A minha resposta é: “Não”; mas quem sou eu para dizer isso? Apenas mais um homem objetivo, mais um na massa de eruditos que habitará aquele Grande Edifício Objetivo.
REFERÊNCIAS:
NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal: Prelúdio de uma filosofia do futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
____________________ Humano, demasiado humano: Um livro para espíritos livres. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
1Humano, demasiado humano. p. 16.
2Além do bem e do mal. p. 12.
3Tomo o termo psicologia como uma reflexão acerca dos modos de viver do homem, isto é, de como o homem age em função de uma moralidade; mesmo sabendo que o conceito de psicologia para Nietzsche seja muito mais amplo. Assim, creio que a perspectiva de psicologia para Nietzsche se aproxima muito mais de uma Psicologia Social, voltada para a reflexão de como os homens agem a partir de uma moralidade da cultura, e não uma psicologia que se preocupa com o “eu” de cada um em si mesmo, visto que para o filósofo isso seria mera superstição. (Idem, p.22)
4É claro que podem surgir questões como: E a perspectiva de Nietzsche não é apenas de um modo de vida também? Mesmo assim, é muita ingenuidade desconsiderar a sua posição com a acusação de relativismo, no entanto, não é nosso interesse discutir epistemologia aqui.
5Idem, p. 11.
6No texto chamado “Resposta a pergunta: O que é o esclarecimento?” de 1784, Immanuel Kant diz que os homens em seu tempo estavam em uma época da menoridade da razão, mas que estavam se encaminhando para o esclarecimento, portanto, para uma maioridade. Nietzsche, ao meu ver, coloca a sua filosofia nessa tradição, sendo assim, um sujeito na maioridade da razão.
7Dentro da perspectiva positivista de Auguste Comte, a evolução do pensamento se daria em três estágios: o estágio teológico (busca de uma razão em divindades); estágio metafísico (busca de uma razão em um mundo inteligível ou absoluto - aqui se encaixaria a filosofia que Nietzsche critica) e estágio positivo (busca de uma razão objetiva, isto é, através de experimentos científicos).
8Filósofo no sentido acadêmico, de estar vinculado à instituições de ensino.
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