Miniatura

Descrição
Artes plásticas. O nome lembra imagem, escultura e cor. Cores que inspiram a realidade de quem vive nas comunidades cariocas, como é o caso de Gilson Oliveira, 34 anos e Gilliard Gonçalves, 27. O primeiro mora na Comunidade da Rocinha, Zona Sul do Rio, o segundo reside no Complexo do Alemão, Zona Norte. Exemplos de convicção, as dificuldades que enfrentam servem como fonte de inspiração para continuarem com os trabalhos artísticos. Seja pintando ou multiplicando o amor pela arte.
Gilliard trabalha como vendedor de materiais de papelaria e organiza eventos gospel. A paixão pela pintura o acompanha desde pequeno, como uma atividade paralela, mas não menos importante. No começo de 2006 seu trabalho foi interrompido provisoriamente. Uma enchente derrubou a parede da casa onde morava arruinando suas obras e todo o seu material, avaliado em cerca de R$ 5 mil.
“Eu tinha bisnagas de tinta, pincéis, telas, diplomas referentes aos cursos, livros, inclusive um sobre a história da arte que valia muito. Para mim, perder uma coisa dessa e virar pai de família ficou difícil. Hoje, eu não consigo, por exemplo, investir R$ 500 na arte”, diz o artista que relembra a dificuldade para se salvar, com a esposa, na época grávida e a filha de quatro anos. A sorte veio com a solidariedade dos vizinhos, que conseguiram tirá-los de lá.
“Não é por causa da enxurrada que vou enterrar meu talento”, diz Gilliard, com uma convicção que surgiu ainda na infância: “Eu sempre estudei alguma coisa referente à arte. Sempre soube que teria contato com ela. Os talentos são dados para serem multiplicados”.
Aos 17 anos trabalhou de vendedor em uma conhecida papelaria na Zona Sul do Rio. Para colorir o local, pintou dois quadros e os colocou na parede, sem a pretensão de vendê-los ou receber elogios pelas obras, algo que aconteceu rapidamente. O primeiro quadro que Gilliard vendeu o surpreendeu. O segundo foi comprado pelo já falecido jornalista, historiador e escritor, Leandro Tocantins e trouxe novas oportunidades.
O escritor gostou tanto da obra que comprou vários outros trabalhos: “Tem até uma arte encomendada que eu vendi para ele que seria colocada no livro 'Longos Ventos da Palavra'", diz Giliard. Com aproximadamente 60 quadros vendidos desde início da carreira, ele destaca a pintura de São Francisco de Assis, a qual foi comprada e depois doada por Leandro, para a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Petrópolis,.que rendeu uma homenagem ao pintor. Outra premiação que ele não esquece foi a do concurso no Museu Militar Conde de Linhares, onde ganhou um troféu de bronze.
Multiplicando o saber
Gilliard ainda não pode investir nos próximos quadros, mas faz questão de passar o que sabe. Na Igreja Batista do Cordeiro, próxima de sua residência, ele vai começar no mês que vem, um curso de iniciação às artes para crianças unindo teoria e prática. “Já temos de 30 jovens inscritos”, diz. Para ele, aprender e desenvolver o interesse pela arte, pode mudar a vida dos jovens da comunidade:
“Elas (crianças) precisam aprender uma arte, uma ciência, para terem a sensibilidade de apreciar a estética artística, uma boa música. De repente surge alguém genial dentro do Complexo do Alemão e a gente não sabe”, diz o artista.
Arte abstrata
Gilson, que faz pintura abstrata na Rocinha, começou a trabalhar aos sete anos de idade. Este fato, segundo ele, o ajudou a ter mais sensibilidade e usá-la nas obras que faz: “Na visão da elite social eu não me enquadro, mas quando conhecem o meu trabalho e sabem que eu moro na Rocinha, eles têm 'dor de cotovelo' ”, diz Gilson.
O estilo artístico dele é um tanto diferente dos quadros com paisagens, que fazem parte do cotidiano dos artistas locais da Rocinha. Pintar figuras abstratas com traços e formas é ser diferente do convencional do local.
“É difícil de vender meus quadros pelo fato de serem abstratos e das pessoas não conhecerem a arte. Mas não gosto de retratar paisagem, só faço quando minha esposa pede. Eu quero pintar aquilo que sinto, a emoção, diz. A esposa, Luciene Ribeiro, opina nas obras de Gilson. “Alguns eu não gosto, outros eu acho legal. Teve um que eu olhei no começo e não gostei muito, mas depois fez sentido pra mim”.
As pinturas abstratas de Gilson são feitas em várias superfícies: vidro, camisas e até corpos. Causando diferentes interpretações para quem vê. “Pai, posso pegar a minha camisa de aranha que você pintou?”, diz o filho Jeferson Ribeiro, 10 anos, ao desejar ser fotografado com a roupa.
“Com o abstracionismo eu tenho mais liberdade, não me preocupo com a simetria. Sempre gostei das cores puras”, fala Gilson. Para aprofundar e compreender melhor a pintura, cores e formas, ele tem aulas particulares, sobre história da arte com um monitor do Centro de Arte Hélio Oiticica, onde trabalha.
O local de trabalho foi um dos grandes incentivadores e dá oportunidade ao artista em observar os vários estilos de arte abstrata. Em 2002 participou do projeto educativo do Centro e a partir daí passou de mensageiro para a função de auxiliar administrativo e também passou a desenvolver a pintura. “Eu tenho acesso às obras de artistas nacionais e internacionais no Centro. Posso sugá-los e aprender com eles”, diz Gilson.
Parte do salário que ganha, vai para a compra dos materiais artísticos. São aproximadamente R$ 100 mensais, que ele dedica para não deixar de produzir. “Eu não tenho patrocínio, não tenho nada. Tiro do meu salário porque não quero parar de fazer arte”, explica.
Amor à arte
Mesmo acompanhando as exposições de artistas renomados e sabendo que há um distanciamento da realidade que vive, Gilson quer ver os quadros que produz expostos no local onde trabalha e na comunidade que mora em um grande evento, incluindo uma performance onde pintará o corpo de uma mulher como parte de um quadro, causando o efeito de pintura viva.
“A arte em si enobrece qualquer pessoa, independente do retorno financeiro. Ela modifica as pessoas e transforma os corações. Tem gente que enxerga a arte como reprodução da realidade, eu acho que a arte é uma opção de mudança, ela serve para transformar a realidade por isso quero trazer para os moradores a oportunidade de conhecer o abstracionismo”, completa o abstracionista.
Para Gilson, além da sensibilidade que adquiriu através da arte, ele quer ser reconhecido como um artista profissional. A batalha diária em entrar no seleto grupo de artistas não diminui, em momento nenhum, a obra produzida por ele:
“Quero que a elite artística me veja como um profissional, não como um coitadinho que mora na comunidade. Nós somos grandes e todo mundo é igual”, diz.
Os dois artistas têm opiniões parecidas em relação às dificuldades enfrentadas para participarem dos núcleos das artes que existem por toda a cidade.
“Entrar nesse grupo artístico é muito complicado por causa das panelinhas sociais”, diz Gilliard, que afirma ser difícil a aquisição de materiais, por serem caros. O acesso à informação nas comunidades sobre exposições e cursos gratuitos da área específica também é um outro problema. Gilson concorda: “Se eu fizesse parte de uma classe social melhor, talvez tivesse outras oportunidades. Como eu não sou conhecido, vou comendo pelas beiradas”, finaliza.
Conheça algumas pinturas de Gilson.Veja nossa Galeria.
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Unir as diferentes classes sociais através da promoção de eventos: festivais, oficinas, debates e reportagens. Tais produções jornalísticas enfatizam as comunidades de baixa renda e seus principais protagonistas: projetos sociais, artistas, moradores e outros.
Incentivar a opinião crítica e a auto-estima do público jovem através de oficinas e palestras.
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