Miniatura

Descrição
“PELO VERDE
Um grupo de professores e alunos da Faculdade de Educação da UFC (Faced) já se mobiliza em favor do tombamento de seis árvores do Campus. Isso, porque um novo bloco que seria destinado à Faced, Contábeis e Arquitetura será erguido em área de estacionamento e do Centro Acadêmico. Pelo projeto, as árvores, frondosas e com décadas de vida, virão ao chão.”1
I
Situado no campo da História da Educação e afins, do meio e inteiro ambiente, das tantas possibilidades e linguagens da História, este artigo tem por escopo pensar, compreender e registrar as lições das jornadas de luta do Comitê Pró-Tombamento das Árvores do Benfica (CPTAB), que teve lugar onde se bem fica, naquela quadra histórica, pelos fins de 2006 e inícios de 2007, logo na primeira década do 3° milênio.
Aquele tempo eram apresentadas algumas teses catastróficas com relação à habitabilidade na planeta Terra, face às ações de barbárie dos homens, em nome do progresso do Capital, da Ciência e Fé. Conforme LÉVÊQUE,
(...) não houve muita preocupação sobre o devir da diversidade biológica, tão longo foi o período em que os recursos vivos pareciam inesgotáveis e que o espaço era suficiente para permitir que os homens ocupassem novas terras sem comprometer, portanto, o futuro das outras espécies.2
Assim caminhava a humanidade naqueles dias. A contemporaneidade e todas suas dobras, naquele período caracterizavam-se pelo confronto entre as forças onde se apóiam a ordem e o progresso, e aquelas forças dionisíacas (a loucura, o êxtase, o ócio criativo). Nesse embate entre a modernidade e sua sucedânea, a pós-modernidade expressava-se no retorno ao trágico. Na contraposição entre a racionalidade e trágico observavam-se então as dobras do atual devir-histórico. Nessa passagem, MAFESSOLI (2003) nos fala sobre essa caracterização que é presente em nossos dias, nas sociedades além-hodiernas.
Em função desse presenteísmo, a grande mudança de paradigma que está operando é bem o deslizar de uma concepção do mundo “egocentrada” à outra “locuscentrada”. No primeiro caso – a modernidade que se acaba –, a primazia é concedida a um indivíduo racional que vive em uma sociedade contratual; no segundo – a pós-modernidade nascente –, o que está em jogo são os grupos, as “neotribos” que investem em espaços específicos e se acomodam a eles. (MAFESSOLI, 2003, p.8) [Grifos e aspas do autor]
Nesse contexto e atmosfera da globalização das agressões à natureza e aos homens de poesia e filosofia, na sua singularidade e especificidade, foi que aconteceu a gênesis das jornadas de luta do CPTAB. Por inspiração dos grandes amantes do Benfica3, tivemos as origens do Movimento Tombar Pra Não Tombar, a célula-tronco do CPTAB.
Passados os primeiros e constantes embates, quais seriam as lições deixadas por esse movimento de carinho, proteção e preservação à Flora benficana? O que pensar de suas ações, reflexões e incertezas? E quanto aos seus inúmeros atos, que legado deixarão à posteridade na história local? Que saberes foram (re)produzidos com essa movimentação das máquinas discursivas e práxis sobre a Educação Patrimonial e Ambiental? O que pensar acerca da posição de tantos doutores e mestres da Faculdade de Educação, bem com de toda Universidade Federal do Ceará?
Nessa comunicação apresentamos para reflexão, as lições e os aprendizados dessas jornadas, com o intuito de buscar responder tais inquietações. Na seção inicial fazemos a genealogia do CPTAB, apontamos suas premissas, inclinações e caráter político e, ainda, as principais atividades desenvolvidas nesse período. Na seção seguinte, efetuamos os diálogos intempestivos possíveis, as interfaces e intersecções acerca da problemática. Por fim, formulamos algumas idéias sobre as lições advindas das jornadas de luta à Flora, sobre o tempo e o lugar, onde se desenrolaram estas lutas, que são contínuas, pois as forças do progresso e do desenvolvimento insistem em produzir barbárie em pleno Centro de Humanidades, no campus do Benfica, um dos singulares lugares de saberes e memórias da Universidade Federal do Ceará.
II
O CPTAB surgiu em novembro de 2006 em torno do ideal de lutar pela não-derrubada das árvores do bairro do Benfica, na cidade de Fortaleza-CE. Isso, por várias motivações, desde a ecológica até à memorial, passando também por uma concepção de política e organização social que, aliadas a questões individuais, resultaram na articulação deste movimento.
Além da indignação acumulada em relação à política ambiental no espaço da UFC, a motivação inicial para a organização do CPTAB foi a existência de um grande projeto de intervenção no espaço do bosque da Faculdade de Educação, que prevê a derrubada de 06 árvores do campus do Benfica, conforme audiência realizada no dia 04/12/2006 para apresentação da obra, pelo ex-reitor, René Barreira, e o arquiteto responsável, Neudson Braga. O projeto consiste num prédio que tem em sua estrutura 3 blocos de 2 andares cada um e o que eles chamam de “centro de convivência, aproveitando a área verde do local”, conforme nota publicada pelo próprio ex-reitor no site da UFC (www.ufc.br/./noticias/noticia,1056,29112006,1,2.shtml).
O CPTAB não está atrelado a nenhum grupo político-partidário ou disputando eleições de diretorias de Ca’s ou DCE, tendo a iniciativa de mobilização partido de um grupo de estudantes, professores e moradores do bairro do Benfica. Inspirados em princípios libertários e na tentativa de superar a ‘decadência política’, impotência e simulação percebida na práxis dos “profissionais da tomada do poder”4, o CPTAB se pauta nos princípios de uma organização apartidária, não-hierarquizada e horizontalizada. A práxis política do CPTAB se opõe ao chamado centralismo democrático, tão comum em organizações vinculadas aos partidos da esquerda oficial, cujas práticas há muito já viciaram também o movimento estudantil, sindical, de bairros etc. Na busca de “substituírem a classe dominante no exercício do poder e assumirem a gestão política do capital”5, a esquerda oficial, chegando ao controle do estado, vê-se num dilema: “ou cai num reformismo total para preservar seu eleitorado – (...) – ou então é intimado a assumir suas perspectivas revolucionárias e será imediatamente varrido.”6 O resultado deste processo é perceptível na recente história política brasileira. “Assim funciona a roleta política, roteiro sem fim onde as apostas estão todas feitas e as mesmas cartas são distribuídas de cada vez.”7
O conceito de patrimônio há muito superou a concepção herdada de uma prática preservacionista iniciada com o SPHAN (1937), que associou patrimônio histórico exclusivamente às edificações que provinham das construções oficiais do estado. Abarcando o que é chamado de imaterial (saberes-fazeres, ditos populares, lendas etc) e a natureza (patrimônio ambiental), a concepção de patrimônio em voga atualmente leva em consideração a importância da preservação de elementos que representem as memórias dos múltiplos grupos sociais formadores da nação brasileira, e não apenas a memória de um grupo que, através da preservação de seus monumentos, se impõe como história nacional.
As classes populares têm suas próprias maneiras cotidianamente vivenciadas de lembrar e preservar as memórias que têm importância reconhecida coletivamente. São formas e processos de preservação espontâneos, que nascem da experiência, daquilo que lhes é caro, significativo, importante, singular. São as artes de fazer de Certeau. O tombamento8 por parte do poder público, é a ratificação e garantia, ancorada por lei, de que algum bem histórico e cultural significativo terá proteção e manutenção asseguradas: o que já têm, na memória das comunidades. Interessante notar também como as lutas e campanhas por tombamentos ocorrem em contextos de ameaças aos bens culturais9 e, em muitas oportunidades, está sendo utilizada como estratégia para conseguir-se a preservação e salvá-lo de uma provável e possível destruição.
Percebemos a memória como conquista e luta em meio ao conflito de projetos sociais e, neste sentido, o CPTAB portou-se como um construtor das memórias de seu tempo, aglutinando iniciativas que propiciaram pensar a construção da memória no espaço da cidade, a partir da campanha pela sensibilização da sociedade civil para a importância e significado das árvores no bairro do Benfica, e seu tombamento como patrimônio histórico-ambiental de Fortaleza. Promovendo ações educativas, reivindicatórias, lúdicas e artísticas na cidade, o CPTAB exigiu a participação na gestão do espaço público e se inseriu politicamente objetivando a preservação de um espaço e das memórias e sociabilidades que este proporciona.
Percebemos na crônica histórica de Fortaleza, a presença constante de árvores que ganharam um significado que vai muito além de sua importância ecológica, estando diretamente relacionado às experiências comunitárias e cotidianas dos habitantes para com elas, que contam-nos a história da cidade a partir da memória de seus moradores. Apesar disso, é notório o descaso do poder público com estas memórias, que se materializa com o corte de árvores que são referências para a continuidade de lembranças e práticas sociais de grupos sociais diferenciados.10
As centenárias árvores do Benfica são o conjunto de bens ambientais que o CPTAB quer preservar para que continuem fazendo parte da paisagem urbana da cidade, isso significa, além de influenciar na construção das memórias, um posicionamento claro em meio à disputa que se travam em nossa comunidade-cidade-país-mundo. Luta esta que se embasa na construção de uma cultura política disforme de uma práxis eleitoreira e carreirista – simulacro de oposição – que restringe a ação política “à disputa de cargos de direção nas organizações sindicais e estudantis.”11
Como afirmar que vivemos num país sem memória?! Vivemos num país sem memória, ou resistimos a aceitar uma memória que nos fôra imposta?? Muitas vezes, iniciativas populares e não-oficiais de preservação do patrimônio histórico não são atendidas prontamente pelo poder instituído, sendo necessários atos de mobilização para a causa, angariando a simpatia popular, governamental e dos meios de comunicação de massa. O CPTAB realizou uma série de atos, as denominadas Jornadas de Luta à Flora, chamando atenção da população do bairro, das autoridades competentes e da administração da UFC para sua problemática. Nas sextas-feiras, entre novembro de 2006 e janeiro de 2007, ao final de tarde, realizaram-se uma série de atos organizados pelo CPTAB: caminhadas12, panfletagens, intervenções artísticas, reuniões, uma mesa-redonda13, notas14, vídeos-debates15, lançamento de cordéis16, fanzines e um bloco no pré-carnaval do Benfica (Unidos das Árvores do Benfica).
Aglutinando propostas e realizando manifestos públicos, o CPTAB fez resistência em várias frentes, tentando materializar suas reivindicações em ações concatenadas com um fim planejado, nas diversas instâncias, desde a institucional, passando pela jurídica, historiográfica e dos movimentos sociais. O contato com os órgãos responsáveis pelas questões relativas ao patrimônio na cidade de Fortaleza (no caso, o departamento de patrimônio da FUNCET), se dá concomitantemente ao contato com os responsáveis pelas questões jurídicas legais referentes à derrubada de árvores no espaço urbano, à nível municipal, estadual e federal, bem como as denúncias aos órgãos fiscalizadores competentes, como o Ministério Público Estadual.
III
O debate acerca do meio ambiente não se constitui em algo novo. Com a ascensão do Capital, sob os auspícios da razão instrumental legitimada pela Ciência, a degradação da Biota do globo terrestre caminhou a passos largos. Desde a Revolução Industrial passando por todos os seus desdobramentos, e seguidas revoluções tecnológicas e das informações que a destruição incessante engole florestas, rios e seres vivos os mais diversos. A extinção de algumas espécies da biodiversidade terrestre era algo dado como fato, não fora à ação de alguns seres portadores de poesia e filosofia radical. A preocupação destes indivíduos amantes da natureza produziu máquinas discursivas e ações singulares. Um exemplo mundial de organização, tenacidade e luta de organismos como o Green Peace estimula às ações em todo o planeta, na tentativa de impedir uma catástrofe ainda maior.
Os problemas ecológicos causados pela intensiva exploração e agressão dos recursos naturais da Terra há muito vêm sendo sentidos, através de uma série de desastres ambientais, como o aquecimento global, a descoberta de buracos na camada de ozônio, o efeito estufa, os tsunamis, as tempestades tropicais e a poluição das grandes metrópoles. Este desequilíbrio ambiental ocasionou, principalmente a partir da década de 70, o surgimento de movimentos ecológicos por todo o mundo, que se esforçam em ações de alerta, denunciando este esgotamento da natureza que se acentua demasiadamente devido à economia mercantil e concorrencial em que vivemos.
Os exemplos ecológicos do capitalismo de estado (socialismo real) – cujo desastre mais conhecido é o de Chernobyl – e “dos partidos verdes que se formaram nos anos 60 e 70, no começo com uma certa perspectiva radical, que terminaram quase todos, entrando em governos de centro-esquerda e convertendo-se ao social-liberalismo”17, mostram-nos caminhos que não queremos seguir. O extermínio de diversas espécies animais, a destruição de vastas áreas florestais e a contaminação dos mares, rios e lagoas por populações em curva demográfica ascendente, demonstram que mesmo o esforço ambientalista de milhares de grupos ativistas espalhados pelo mundo não são ainda capazes de deter a sanha exploratória do capitalismo mundializado.
Neste processo de debates sobre a ecologia, o termo biodiversidade, contração de diversidade biológica, foi introduzido na metade dos anos 80, pelos naturalistas que se inquietavam pela rápida destruição dos ambientes naturais e de suas espécies, e reclamavam que a sociedade tomasse medidas para a proteção deste patrimônio. Este conceito logo foi popularizado quando das discussões e fóruns da ECO 9218, que ficou conhecida como a Cúpula da Terra, pois considerada o evento ambiental mais importante do século XX. Dessa série de reflexões temos considerações de LÉVEQUE (1999), que conceitua biodiversidade como a variabilidade dos organismos vivos de qualquer origem, compreendendo entre outros, os ecossistemas terrestres, marinhos e outros ecossistemas ecológicos dos quais eles fazem parte (LÉVEQUE,1999, p.14).
Fortaleza com sua biodiversidade, já foi uma cidade reconhecida como tendo um dos ecossistemas urbanos mais arborizados do país, isto por motivos naturais. Historicamente, as políticas de arborização do poder público municipal já se pautaram no transporte de espécies exóticas para fins de aformoseamento das ruas, como os inúmeros Fícus Benjamins que ainda hoje estão presentes em alguns bairros, como no Benfica. Prática biologicamente comprometedora, a inserção de espécies estranhas na flora local pode ter conseqüências ecologicamente desastrosas, pois proporciona a entrada de um elemento estranho a este meio ambiente, que se readaptará ao novo espaço. Os riscos são, além do desequilíbrio desse ecossistema, a queda da biodiversidade (das vidas que dependem da flora nativa), a homogeneidade da paisagem ao invés da diversidade e a possibilidade de ocorrência de pragas, como a que ocorreu na década de 60 em Fortaleza, quando um inseto, apelidado pela população de Lacerdinha, devastou os Fícus Benjamins plantados a partir dos anos 20.
O bairro do Benfica tem um cinturão verde ainda representativo da paisagem fortalezense de outrora, tanto a natural, pela presença de espécies nativas, quanto a paisagem construída pelos moradores desde o final do século XIX, que introduziram árvores estrangeiras, como as mangueiras centenárias que resistem ao tempo.
“Com a necessidade que passava Fortaleza de residências para uma classe emergente de funcionários públicos, profissionais liberais e pequenos comerciantes do centro da cidade, a família Gentil ainda na década de 20 iniciou a abertura de vilas e ruas e a construção de residências para diferentes níveis de renda. O interessante, nesse projeto, é a preocupação com áreas verdes, não tendo sido derrubadas sequer aquelas árvores que ficaram no meio das ruas e que ainda hoje, resistem ao tempo.”19
O banqueiro João Gentil, patriarca do ramo genealógico, era homem reconhecidamente preocupado com a preservação daquelas árvores em seu terreno, e no quintal de sua casa (o atual jardim da reitoria da UFC) mantinha famosas mangueiras cheias de sagüis, mandando até mesmo os trabalhadores desviarem alguns muros para evitar derrubá-las, ao lotear porções de terras e construir casas para vender em sua propriedade. Reza a tradição oral coletada no bairro, que o Sr. João Gentil varava madrugadas acordado pensando em como evitar a derrubada das árvores de seu imenso quintal a ser loteado. (substituir pela citação Jornal O POVO de 1941)
Ainda perceptível através de fotos aéreas, o Benfica de antigamente era coberto de um arvoredo repleto de cajueiros, ingazeiras e outras espécies nativas, sendo que muitas destas foram derrubadas pelos donos de chácaras para o cultivo de plantas exógenas, como mangueiras e tamarineiras, muitas das quais ainda vivas em quintais de moradores que herdaram, além das casas de seus antepassados, o hábito de cultivar hortas para agricultura de subsistência, junto com o apreço às árvores e às lembranças que elas representam. CITAÇÃO BARROSO
No espaço da UFC, próximo às Casas de Cultura Estrangeira, sempre há uma grande árvore, de preferência mangueiras ou figueiras, que sombreiam toda a área externa da residência, criando um verdadeiro campo propício à sociabilidade em torno das antigas residências, que ainda hoje é aproveitado pelos estudantes nos intervalos entre as aulas, para animados papos, namoro, confraternizações etc. Além da importância ecológica, as sombras das árvores proporcionam espaços de sociabilidade e a manutenção de práticas sociais que são seriamente ameaçados quando de seu corte.
Até a década de 1950, era comum encontrar-se ingazeiras, jucazeiros, pitombeiras, e várias espécies nativas pelas ruas do bairro. Hoje em número e diversidade bem menores, estas espécies atraíam inúmeros pássaros, como rolinhas, sabiás, galos-de-campina e corrupiões para se alimentarem, o que fazem, ainda hoje, as situadas no meio da rua N. S. dos Remédios, vizinho ao terreno da reitoria, que são habitat de inúmeras espécies de pássaros e morcegos, que se alimentam de seus frutos. As mangueiras, os sapotizeiros e todas as espécies da Flora e da Fauna do Bosque do Centro de Humanidades, no Campus do Benfica, bem como dos demais bosques no entorno do bairro, constituem a biodiversidade do nosso lugar e do nosso tempo.
No espaço do Benfica dialogam várias épocas, materializadas em construções e modificações da paisagem feitas pelo homem, como as edificações de inspiração européia e as árvores importadas que, junto às espécies nativas que ainda permanecem vivas, formam a paisagem viva do lugar em nosso tempo.
IV - Conclusão
Foi compreendendo a noção de potência do jogo e da invenção de si, que se assemelha a uma força que vai além-demasiada humana, uma seiva e pujança do heroísmo dos romantismos de outrora, com toda a potência e radicalidade, que o CPTAB lançou-se à luta e suas jornadas produziram inúmeros saberes e práxis.
De início, nosso jogo em pré-potências assinalou um modo de fazer, de criar e de novamente re-inventar, de ser amante constante, carinhoso, protetor e estimulador de amores a toda a Biota e biodiversidade possível. No dizer de MAFESSOLI (2003) um outro modo de canalizar as forças vitais do ser humano e que traz a influência da orientalização, numa referência a flor de ouro do Taoísmo para tematizar “a liberação não mais baseada no domínio desenfreado das forças da natureza, mas em uma espécie de “soberania” que sabe reconhecê-las, e que orienta a atividade individual e, conseqüentemente, social. (MAFESSOLI, 2003, p.79)
Como não se inquietar enquanto aos nossos olhos, corações e mentes vêem-se a destruição, degradação e barbárie. Que comunidade acadêmica mais ‘democrática’ esta, que decide de forma unilateral o que deve ser preservado e o que deve ser destruído? A memória é construção e a luta para termos direito a ela se dá através de verdadeiras batalhas, nos campos políticos e sociais, combates cotidianos pelo direito à uma memória múltipla e plural, como a que o CPTAB enfrenta desde que começou a realizar esta campanha pelo tombamento do conjunto de árvores do Benfica.
O CPTAB ressaltou em seus atos/ações/manifestos, a importância da manutenção das áreas verdes em zonas urbanas, destacando aspectos históricos das políticas públicas de preservação e arborização. O que pode ocasionar a continuidade da derrubada indiscriminada de árvores no tecido de uma urbe que cresce e incha incontrolavelmente?
“Certamente, aquilo que foi destruído o foi para sempre, mas o que está em perigo pode ainda ser salvo.”20 Fizemos e faremos nossa parte, a lições que ficam são que tudo é possível quando usamos a imaginação, o tesão, a poesia e a potência que emana da força coletiva que se contagia em todos nós, na brisa suave que sopra dessas nossas irmãs, parceiras e musas, que são as árvores do Benfica.
BIBLIOGRAFIAAZEVEDO, Otacílio de. Fortaleza Descalça: reminiscências. Fortaleza: Edições UFC/PMF, 1980.
BAUDRILLARD, Jean. Partidos comunistas: os paraísos artificiais da política. Rio de Janeiro: Rocco, 1985.
CAVALCANTE JÚNIOR, Raimundo Elmo. “Quem é de Benfica”: O bairro como lugar da sociabilidade e espaço das práticas de resistência”. Dissertação de Mestrado em Geografia. Universidade Estadual do Ceará. 1999.
GUIMARÃES, Yanna, “População se une para preservar árvores no Benfica”. Jornal O POVO. Fortaleza: dia 23/11/2006.
LÉVÊQUE, Jacques. A Biodiversidade. São Paulo: EDUSC, 1999.
MAFESSOLI, Michel. O instante eterno: o retorno do trágico nas sociedades pós-modernas. Tradução: Rogério de Almeida, Alexandre Dias. São Paulo: Zouk, 2003.
NOGUEIRA, João. Fortaleza Velha: crônicas. Fortaleza: edições UFC/PMF, 1980.
RAPÔSO, Manoel Coelho. Carta/ afastamento do PCR. Fortaleza: Forgrel Editora, 2004.
Encontro Estadual de História, 4. Belo Horizonte, 1985. Anais... História e historiografia em Minas Gerais. Belo Horizonte: ANPUH/MG, 1985.
Jornal consultado: O POVO, dia 17 de novembro de 2006.
Panfletos consultados do CPTAB:
“Tombar para não tombar”; “Se você respira se importe, lute contra o corte!”; “Prelúdio de um Assassinato: Pinte no Bosque!”; “Boletim Informativo do CPTAB”.
1 Disponível na Internet via: http://www.opovo.com.br/opovo/colunas/vertical/648210.html Data do acesso: 02/02/2007. Jornal O POVO, dia 17/11/2006, Coluna Vertical.
2 LÉVÊQUE, Christian. A biodiversidade. São Paulo: EDUSC, 1999. Páginas 9-10.
3 GUIMARÃES, Yanna, “População se une para preservar árvores no Benfica”. Jornal O POVO, dia 23/11/2006. Disponível na Internet via www.opovo.com.br/opovo/fortaleza/649775.html). Data do acesso: dia 07/02/2007.
4 BAUDRILLARD, Jean. Partidos comunistas: os paraísos artificiais da política. Rio de Janeiro: Rocco, 1985. página 10.
5 Idem, página 10.
6 Idem, página 14.
7 Idem.
8 “O tombamento é um ato administrativo realizado pelo Poder Público com o objetivo de preservar, por intermédio da aplicação de legislação específica, bens de valor histórico, cultural, arquitetônico, ambiental e também de valor afetivo para a população, impedindo que venham a ser destruídos ou descaracterizados.” Disponível Internet via: www.iphan.org.br . Data do acesso: 05.01.2007
9 “Toda produção humana de ordem emocional, intelectual e material, independente de sua origem, época ou aspecto formal, bem como a natureza que propiciem o conhecimento e a consciência do homem sobre si mesmo e sobre o mundo que o rodeia.” GODOY, Maria do Carmo. Patrimônio Cultural: conceituação e subsídios para uma política. IN: Encontro Estadual de História, 4. Belo Horizonte, 1985. Anais... História e historiografia em Minas Gerais. Belo Horizonte: ANPUH/MG, 1985.
10 Exemplos do desrespeito ao patrimônio histórico e ambiental em Fortaleza, foi a derrubada de várias árvores de significativa importância para a memória da cidade do século XIX que, apesar dos protestos, revolta e indignação, foram cortadas a mando do poder municipal sem consulta alguma aos moradores da cidade. O cajueiro do Fagundes, o cajueiro da mentira (derrubado em 1920 a mando do prefeito Godofredo Maciel) e o oitizeiro da capela do Rosário (que após tentativas frustradas em 1862 e 1912, foi cortado em 1929 a mando do prefeito Álvaro Weyne) são os exemplos mais conhecidos deste desrespeito à memória da cidade. Demonstrando que esta prática continua, em 2004, durante obras de reforma, tivemos o corte de uma mangueira centenária localizada no meio de um campinho de futebol da praça da Gentilândia, no bairro do Benfica; esta fazia parte das memórias locais e era uma referência histórica para várias gerações de moradores do lugar, que nada puderam fazer, além de se indignarem, pois que esta já havia sido tombada durante a madrugada. Sobre a derrubada de árvores de relevância histórica em Fortaleza, ver: AZEVEDO, Otacílio de. “O Oitizeiro do Rosário” & “O ‘Cajueiro Botador’” IN: AZEVEDO, Otacílio de. Fortaleza Descalça: reminiscências. Fortaleza: Edições UFC/PMF, 1980. Páginas 27-28 e 117-18; e NOGUEIRA, João. “O Oitizeiro da Capela do Rosário”. IN: NOGUEIRA, João. Fortaleza Velha: crônicas. Fortaleza: edições UFC/PMF, 1980. Páginas 157-161.
11 RAPÔSO, Manoel Coelho. Carta/ afastamento do PCR. Fortaleza: Forgrel Editora, 2004. Página 05.
12 No dia 24 de novembro o CPTAB realizou a I CAMINHADA ECOLÓGICA PRÓ-TOMBAMENTO, com concentração às 17 horas na praça da Gentilândia, que percorreu as principais ruas do Benfica publicizando a campanha pelo tombamento das árvores do bairro e angariando a simpatia popular.
13 No dia 7 de dezembro de 2006 o CPTAB realizou, no auditório do departamento de História da UFC, uma mesa-redonda intitulada “As Árvores do Benfica como patrimônio histórico e ambiental de Fortaleza”, com participação de representantes da FUNCET, Reitoria, SEMAM e do CPTAB.
14 O CPTAB lançou 4 notas e um boletim informativo, entre novembro de 2006 e fevereiro de 2007.
15 O CPTAB realizou por duas oportunidades vídeos-debate na praça da Gentilândia, abordando questões ecológicas, um destes no dias 12/01/2007, com a exibição dos curtas “Ilha das Flores”, “A Carne é Fraca” e “Fortaleza começa com B”, entre outros, e debate com os presentes.
16 O CPTAB realizou um sarau e o lançamento do cordel “Na Hora da Doença”, de Amanay Parangaba, em parceria com o Selo Editorial PalavrAndante, na praça da Gentilândia, no dia 21 de dezembro de 2006.
17LOWY, Michel. Ecologia e Socialismo. Disponível na Internet via: http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2007/02/373155.shtml. Data do acesso: 23/02/2007.
18 Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a ECO 92, resultou em uma série de convenções, acordos e protocolos. Alguns dos quais não foram efetivados pelos países signatários, como o Protocolo de Kyoto - destinado a redução da emissão de gases - e outros ratificados como o da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB). Dos 175 países que assinaram a CDB, em 1992, no Rio de Janeiro, 168 confirmaram a disposição de respeitá-la, incluindo o Brasil. Disponível via: www.comciencia.br/reportagens/biodiversidade/bio06.htm / Acessado em 12/07/2007.
19 CAVALCANTE JÚNIOR, Raimundo Elmo. “Quem é de Benfica”: O bairro como lugar da sociabilidade e espaço das práticas de resistência”. Dissertação de Mestrado em Geografia. Universidade Estadual do Ceará. 1999. Página 49.
20 LÉVÊQUE, op. cit., página
Licença
Sistema de Origem
Iteia
Autor/a
Descrição
O Projeto Historiando é uma iniciativa de um grupo de professores de história e arte-educadores comprometidos com a educação enquanto arma de transformação social, que visa historiar comunidades, bairros e municípios a partir de pesquisas coletivas sobre história e patrimônio locais junto a jovens moradores dos lugares.
Com a utilização de metodologias que estimulem a participação e autonomia, buscamos extrapolar os conteúdos escolares e experimentar outras maneiras de pensar, aprender e vivenciar o processo de ensino-aprendizagem em história através da educação patrimonial. Pretendemos ampliar os espaços onde desempenhamos nosso ofício e as formas de compartilhar socialmente reflexões sobre problemáticas históricas e linguagens para sua comunicação; partindo do pressuposto de que as memórias sociais em conflito se constroem nos diversos espaços e patrimônios, não limitamos nossa atuação às salas de aula, seja em escolas ou universidades.
A pesquisa em história local permite aos participantes construírem novas concepções sobre história, pedagogia, cultura e sobre o que é o seu/nosso patrimônio; a partir da compreensão de sua própria historicidade no mundo real vivido e das diversas formas nas quais o patrimônio se apresenta: (re)descobrir seu bairro, sua rua, sua família, a si próprio: o que lhe pertence e quais os significados presentes em bens culturais cotidianamente vivenciados pelas comunidades das quais fazem parte.
Coletivo
tamanho
0


