Miniatura

Descrição
Eu não tenho muito o que falar de experiências vividas com o Gilberto Freyre sociólogo, antropólogo, mas com o Gilberto avô, que sequer era chamado de Gilberto ou de Vovô, mas carinhosa e intimamente de Konkon.
Uma pessoa bastante comum, que adorava programas comuns, adorava ver a família reunida nos históricos almoços aos sábados, adorava desenhar, adorava brincar, contar histórias, adorava seus chinelos e adorava viajar. Era capaz de parar qualquer trabalho que estivesse desenvolvendo na biblioteca da sua Vivenda Santo Antônio de Apipucos - hoje Fundação Gilberto Freyre - , ao ouvir 'a danação'- como denominava
Dona Madalena, sua esposa e minha avó - que os
netos faziam quando ali chagavam para brincar quando findas as tarefas escolares do dia. E as brincadeiras eram as mais diversas possíveis, pois talvez seus netos acreditassem que todos ali tinham a mesma idade, inclusive (ou principalmente) Konkon, que por ter menos agilidade, era sempre escolhido 'democraticamente' para ser o péga ou o 'bobinho' quando brincávamos com bola nos jardins da sua vivenda. Às vezes a brincadeira começava ainda dentro de casa, porém minha avó logo o reprimia dizendo que ele parecia ter a nossa idade
(uma média de 7/8 anos), quando ele já gozava dos seus vivos 80/81 anos.... E ao final da brincadeira, quando era chegada a hora de se preparar para ir ao colégio, entravamos ofegantes num quartinho da casa-grande que era uma espécie de dispensa e pegávamos uma garrafinha de guaraná antárctica caçula para 'baixar o calor'. Isso era uma festa diária, que nos leva a sentir muita falta da presença dele entre nós.
Porém, ser 'neta de Gilberto Freyre' também tem o seu preço, sempre teve: eu sempre fui muito cobrada no colégio,na faculdade, no trabalho. Sempre tive que ser muito boa aluna e ter idéias brilhantes e é difícil para as pessoas entenderem que Gilberto Freyre era ele e não eu. Eu jamais tive o direito de estar 'com preguiça' de pensar e escrever qualquer coisa no papel... Mas Graças a Deus eu adoro ler e mais ainda escrever, se não, teria tido sérios problemas escolares. Porém, não vou negar que ainda hoje fico bastante chateada quando me esforço para fazer algo bem feito e quando admiro o resultado final da minha obra, seja ela o projeto mais complexo ou a mais simples idéia, e as pessoas 'me parabenizam' dizendo '...também, sendo neta do Mestre Gilberto, já era de se esperar!...' E talvez até nem saibam, mas isso é horrível! Reduzem a minha capacidade a um 'presente' genético.
Mas... é a ele que eu devo o despertar do meu amor pela arte e literatura, pois, por volta dos meus 06, 07 anos, eu pintava alguns garranchos, ele os achava bonitos (ou dizia que achava para que eu não ficasse triste) e os guardava com o maior carinho ou os exibia para quem estivesse na casa. E várias vezes, ao pintar seus quadros, ele me convidada a participar da pintura e me deixava à vontade para fazer os meus rabiscos na sua obra. Eu ficava felissíssima! E até onde minha memória me leva ao passado, era dele que eu escutava as primeiras histórias. Histórias como as de Monteiro Lobato, as quais lembro que eu achava o máximo saber que o autor daqueles livros todos e do Sítio do Pica-Pau Amarelo que eu adorava, era amigo do meu avô. Eu contava isso para todas as minhas amigas e ninguém acreditava... e uma outra história que eu lembro tê-la ouvido repetidas vezes foi a de Manuela, a menina que não gostava de comer e ficou tão magra, mas tão magra que virou folha e foi levada pelo vento para bem longe da sua família. Essa história era sempre repetida quando não queríamos parar a brincadeira na hora da refeição e essa era a 'psicologia' que ele usava conosco, pois o medo de virar folha e voar para bem longe nos fazia sentar-se à mesa num instante...
E na madrugada da sua morte, eu sonhei com ele me dizendo sentado à sua poltrona e eu sentada em um dos braços (da poltrona) como eu sempre fazia, que ainda teria muito orgulho de mim, mas 'de longe' e eu, com 10 anos apenas, não entendi o que seria essa distância. E eu tenho as imagens deste sonho muito vivas como se tivessem sido reais e ficaram para mim como as últimas imagens que eu tenho dele. E fazer por merecer este orgulho tornou-se então uma meta diária na minha vida que eu acredito funcionar como um elo que jamais permitirá nossa separação total.
E agora, ao assistir à cada homenagem ao longo das comemorações do seu centenário, eu só lastimo é ter nascido quando ele já era um bom velhinho e só ter podido aproveitar 10 anos e meio da minha vida em sua companhia. Tenho certeza que poderia hoje estar dividindo com ele muito dos meus planos pessoais e profissionais e que ele teria muito a me ensinar dentro destas duas perspectivas. Mas fico aqui com o que me resta: aquelas velhas histórias, o chiado do seu chinelo, as brincadeiras no jardim, a minha busca incessante pela conquista deste orgulho e de poder voltar a ouvir, mesmo que em sonho, a sua voz rouca comemorando minhas vitórias com o estrondoso 'Viva! Viva!'
Fonte: Revista Cultural, abril/2000
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Conteúdo desenvolvido pela equipe de assessoria de imprensa da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe)
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