Descrição
Uma das formas de se pensar um sistema para artes visuais no Brasil é a partir: da atividade propriamente dita; de sua dimensão institucional; e da assimilação pública da produção. De uma perspectiva ideal, este conjunto precisa ser um triângulo eqüilátero, implicando naturalmente, em que essas partes possam ser co-requisitos equânimes e ativos. No Brasil, isso necessita vir a existir com potência e dinâmica. Embora equivalentes, a assimilação pública da produção talvez seja a mais frágil dessas três faces - se é que é possível fazer uma hierarquização de dificuldades nesse campo pouco estruturado.
A assimilação da produção de artes visuais diz, por exemplo, da consciência de necessidade desse verbo para além dos museus, galerias e da formação formal escolar. Aponta para um transbordamento do que pode ser a cultura visual, passando pela noção de costume, de crença, de cidadania e autonomia, de auto-estima e, sobretudo, de identidade.
Nós nos dizemos um povo musical, mas não nos percebemos visuais e somos intensamente visuais. Talvez por isso, a quinhentos anos aceitemos a idéia de que somos exóticos e, não, que somos riquíssimos em cores, diversidade e manifestações – o que implica em potência, fecundidade e humanidade.Mas que variáveis poderiam ser mexidas para a minimização dessa distorção de auto-estima, por exemplo? Que elementos dão margem a que se pense essa auto-imagem como um produto menor? O que podem ser alternativas para inverter essa perspectiva?
Dois momentos parecem datar o surgimento desse sistema no País: a Invasão Holandesa e a criação da Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios, por Dão João VI. A primeira ocasião foi um período de registro, de pesquisa sobre o novo mundo e para o desvelo de seu “exotismo”; mais tarde com a vinda da Corte Portuguesa para o Brasil, se trouxe uma amostra da Escola Francesa de Belas Artes, que teve por “missão introduzir um sistema de ensino de arte em academia”**. Há um terceiro tempo: a imigração entre, o fim do Século XIX e início do Século XX. Nenhum dos três momentos parece ter apontado para a importância da assimilação pública dessa produção, em que dimensão fosse.
Essa imigração como é sabido não foi espontânea, mas incentivada pela crise em alguns países da Europa e pelo fim oficial da escravatura, por aqui – a qual se deu por pressão internacional. Ou seja, milhões de pessoas, que não eram vistas como pessoas, passaram a ser livres para não poder nada, sem direito à voz, por terem “ganho (?)” a liberdade.
É importante ressaltar que esse aparte foi, em dados do IBGE, o que restou de 38% do total de africanos degredados na história do tráfico negreiro. Não se pode pensar, portanto, em um número pequeno.
Nas primeiras décadas do século XX os imigrantes tinham conquistado um poder aquisitivo diferenciado, dispondo de meios para contratar informalmente essa “massa” que se estabeleceu nas periferias das grandes cidades, mantendo seus cultos, costumes e hábitos – inclusive, considerados como criminosos, por isso. A re-inclusão desse apartado social, em outras palavras, foi um retorno à periferia do sistema para realizar as tarefas que eram próprias dos escravos, - com a diferença de estar um degrau abaixo na escala social: se antes eram um terceiro quesito dessa escala, passaram a ser um quarto elemento com a fama de vagabundo pelas condições que precisou implementar para sobreviver.
Numa atualização rápida dessa conformação para hoje, pode-se dizer que isso pouco mudou à custa de uma batalha, quase quixotesta, acerca, principalmente de uma mobilidade social medíocre.
A Educação formal no Brasil é um dos sintomas da manutenção desse depoimento – como instrumento e pela qualidade que apresenta. Se os índices oficiais mostram numa queda expressiva do analfabetismo. De outra forma, percebe-se um ressurgimento da febre amarela, corre-se o risco de descontrole de doenças como a dengue e a tuberculose, entre outras. Não é só. São descompassos também a violência, a fome e a gritante distorção na distribuição de renda. É um paradoxo indesejado, produto de um padrão histórico supra-governamental (de Estado, portanto) que carece de dissolução.
Tomando em conta essa lente específica como balão de ensaio, como pensar uma ação reguladora que possa rever sem criar ou tender a mais um preconceito? Como operar para que se possa ter por resultado a tendência à harmonia social e não abrir mais uma idiossincrasia indesejada?
A Cultura, que é essa película fina e imaterial que nos identifica e auto-determina como um grupo pode ser um remédio altamente eficiente para o ajuste necessário no sentido se pensar melhor e em pouco tempo esse futuro.
Abrindo aí mais um recorte, através da Cultura Visual pode-se alterar muito positivamente esse quadro, pelo potencial simbólico que estabelece. A auto-estima, a fronteira digital e, mesmo, o pertencimento são matéria de poesia e desse expediente. Essa premissa, no entanto, pede uma atenção mais alta, no sentido pragmático de uma pedagogia mais eficiente à transmissão do conhecimento, da cidadania e de um espaço revigorado de consciência de si, de seu pretérito para o seu tempo, - índio, negro, branco, amarelo ou híbrido. Ela aponta para uma gramática visual que precisa ser sistematizada, ao menos como coadjuvante dessa formação civil, de modo que a diferença possa ser mais graça e menos exclusão.
(**)http://wapedia.mobi/pt/Miss%C3%A3o_Art%C3%ADstica_Francesa
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