Miniatura

Descrição
As trovoadas passaram. O frio se despede de nós, sertanejos, em agosto. Agosto, mês do desgosto, como dizia mãe-Teté, de cócoras no quintal lá de casa, cigarro de palha e fumo picado num canto da boca, figura seca, magra, alta, mistura de negros e índios. “Vem cá, meu santo” - dizia me puxando pra sua corcunda, balanço de improviso onde eu brincava, mimado. “O defeito desse menino é ter nascido em agosto - lamentava - mês de cachorro-doido”. Aquela conversa pra mim, criança, era muito estranha. Tudo pra mim era muito estranho. Nossos adultos pedem chuvas, bom inverno. Quando elas chegam, se desmancham de medo. “Esse ano as trovoadas vem assombrando o mundo!“ e jogavam, nas chuvas, pratos no chão do quintal pra afastar os trovões. E pregavam na porta cruzes de palhas de coqueiro, benzidas no domingo de ramos, pra afastar os relâmpagos. Durante as chuvas pesadas, com fortes trovões, corríamos pra debaixo da mesa da cozinha, temerosos de o céu desabar sobre nossas cabeças. Ou nos amontoávamos sobre a cama, sob um toldo improvisado com uma rede aberta. Vela acesa diante do santuário. Esse terror, soube depois, é ancestral. Vem de antes da ocupação do sertão nordestino, com os tapuias. Por quais vias espirituais ou genéticas esse temor profundo dos tapuias se plantou em nós, sertanejos? Sobre esse nosso índio sertanejo as informações são escassas. Diz-se que eles adoravam/temiam/cultuavam as forças da natureza como a lua, o sol, o trovão. Este último haveria de castigá-los no “fim do mundo”, rasgando o céu de ponta a ponta, engolindo a todos. E o fim do mundo poderia estar naquela próxima chuva desmantelada de grande. É certo que o fim deles veio, enquanto nação, na boca das armas de fogo e ferro da gente do litoral, desejosos de terras, riqueza e pasto para gado. É certo também que eles não foram massacrados completamente pois enquanto houver trovoadas, os tapuias continuam se mexendo dentro de nós, nascidos neste sertão.
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Sistema de Origem
PENC
Autor/a
Descrição
Tárcio Oliveira é de Tuparetama, no Alto Pajeú, sertão de Pernambuco, onde vive até hoje e por enquanto. É de agosto de 1968, com idade mental oscilante entre 05 e 50 anos.
O que mais gosta de fazer é de escrever, pintar, desenhar e fotografar. Às vezes faz isso por dinheiro, às vezes faz isso por prazer, às vezes faz pelas duas coisas.
Tem seu ateliê na Rua da Matriz nº 27, em Tuparetama.
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dominio público
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Dança dos índios tapuias, óleo sobre tela de ALbert Eckout, 1641



