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Descrição
Por si só um grande mestre. Este é Ariano Suassuna. Escritor romancista, dramaturgo, literário!! Não podemos deixar de dizer que foi um dos grandes pensadores da música quando fundou o Movimento Harmorial dentro da Universidade Federal de Pernambuco.
Quem já teve o prazer de ouvir essas composições pode entender um pouco mais como o popular é mesmo uma raiz nossa, muito antes de existir qualquer música clássica. Eram melodias que podiam ser executadas por orquestras sinfônicas, tudo para deixar bem claro que erudito nada mais é do que puro popular. Afinal, as músicas que herdamos para chamar algo de erudito vêm da tradição medieval. Mas os que tocavam seus alaúdes e flautas naquela época eram nada menos do que os camponeses e vassalos que, para se distrair, reuniam-se diante de rodas e faziam muita festa.
Dessa forma a cultura e a música foram passadas até chegar nos grandes castelos e se propagar pelos dias em que a burguesia se apropriou para dizer que é algo erudito e clássico. Do barroco à idade moderna, Ariano vem para nos mostrar o quão valioso é o nosso Brasil, o quão musical e dançarino é nosso povo. Falou de futebol e da bela jogada de Robinho contra o Equador no último jogo do Brasil, se não me engano. Disse isso para usar uma bela comparação que usaria durante toda a sua aula espetáculo: que os políticos brasileiros devem governar o país como o Robinho joga futebol, que os escritores brasileiros devem escrever como o Robinho joga futebol, que os pintores devem pintar como o Robinho joga futebol. E mais, disse que a ginasta Dayane dos Santos, mulher, negra e pobre, alguém que deve ter sofrido muito preconceito na vida por causa disso, é um exemplo de alguém que serve a seu país com consciência e lucidez, que é uma atleta como o Robinho joga futebol. Maravilhoso Suassuna, velhinho, voz arrastada, porém contundente e sereno. E que senso de humor!
“O rio São Francisco é o rio da unidade nacional e cabe a cada brasileiro voltar-se sempre a esse eixo para que não se esqueça que faz parte de um povo inteligente e misterioso. E digo mais, esse eixo vai além do rio e da ligação Nordeste/Minas, segue até a Amazônia e desce pelo outro lado até Pelotas – RS”.
“Nenhuma tirania resiste a uma gargalhada que circule três vezes em torno dela. Não sou ufanista. Somos indisciplinados por natureza, o nazismo só deu certo na Alemanha porque os alemãs são muito organizados. O povo brasileiro é corajoso, criativo e bem-humorado. Países mais bem organizados do que o nosso têm povos tão tristes. Ainda bem que não nasci na Suíça”.
“Só falo português porque é mais fácil. Se tivesse nascido na Alemanha seria mudo, porque não aprenderia aquilo lá jamais. O português, além de mais fácil, é riquíssimo. Copo em inglês é glass, e vidro em inglês é glass também. Então se eu vou falar copo de vidro em inglês eu digo glass de glass? Vaaai te embora!!”
“Existe preconceito contra a cultura brasileira. Falam que não existe brasileiridade na cultura feita aqui no Brasil. Existe sim, e ela não começou com a chegada dos portugueses, ela já existe há muito antes. Existe a cultura rupestre, que se você reparar bem, pode encontrar as mesmas máscaras desenhadas nas cabeças de foliões de Folias de Reis pelo país afora! Essa cultura se estende pelo eixo Nordeste/Minas do Velho Chico e para fora dele”.
“A arte é aquilo que se acrescenta ao real. Um pintor que, ao retratar um cachorro, faz um desenho do animal puro e simples, só faz mais um cachorro. Ao contrário, se evoluir disso, dessa forma sim estará contribuindo para a arte”.
“Beleza é um instinto fundamental ao homem. Tem gente que tem direito de ser feio, mas contribuir para a feiúra é demais”.
“A ousadia da cor que existe no Nordeste falta em Brasília, cidade pálida e desconfortável. Parece até que deram um susto enorme nela há tempos atrás e ela até hoje não se recuperou!”
Ao final, Ariano leu um belíssimo texto do artista, arquiteto e mestre de obras autodidata Gabriel Joaquim dos Santos (Galdi), no qual ele diz que não teve escola e aprendeu tudo com a ventania. Criador da Casa da Flor, em Cabo Frio-RJ, Galdi chamava sua obra de bordados, que eram cacos de cerâmica e vidro pregados na parede em forma de flor. Um bom exemplo de alguém que faz o que faz como o Robinho joga futebol.
* Texto produzido para o projeto de cobertura compartilhada da “TEIA 2007” e publicado originalmente em www.ongnetbrasil.org.br. Sobre a cobertura compartilhada, leia mais em www.agenciateia2007.org.br
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Escritor pernambucano participou de uma concorrida aula-espetáculo nesta quinta-feira (8) na TEIA 2007, citou Robinho e Dayane e disse que ainda há preconceito contra a cultura brasileira.
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Aline Souza*
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Élcio Paraíso
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