Descrição
“Fizemos da nossa ferramenta de trabalho, um instrumento de transformação”. A frase dita por Mestre Barachinha (Maracatu Estrela Brilhante) traduz bem o tom das discussões do terceiro debate do ciclo Entendendo o Carnaval, realizado na última terça-feira (10), no Teatro Arraial. Além dele, participaram os mestres Bia (Maracatu Leão Vencedor) e Manuel Salustiano (Maracatu Piaba de Ouro) que, ao longo de quase duas horas, transmitiram à platéia toda a vivência de quem comanda esses grupos há tanto tempo e com tanta paixão.
Não se poderia iniciar um debate sobre maracatus sem fazer referência ao Mestre Salustiano, criador da Associação dos Maracatus de Baque Solto e pacificador atuante entre os grupos, no período em que a rivalidade gerava violência entre eles. Antes de começar as palestras, foi exibido um trecho do documentário “O brincante Salu”, dirigido por Marcílio Brandão e com duração de 50 minutos. O vídeo contém depoimentos do próprio Salu, além de relatos de alguns de seus 15 filhos e de outras pessoas com quem conviveu.
Essa relação com o maracatu, iniciada na infância, também foi protagonizada pelos três palestrantes da noite. Foi com a propriedade de quem convive com essa tradição que Bia, Barachinha e Manuel expuseram suas experiências. O primeiro, presidente do Maracatu Leão Vencedor que, atualmente conta com 210 componentes, falou do papel que desempenha na agremiação: “Ser presidente é como ser pai daquela nação. Qualquer coisa que aconteça, sou eu quem resolvo.” É ele mesmo, num trabalho de artesão e comandante, quem faz as golas e os estandartes da agremiação, que durante o Carnaval percorreu várias cidades do estado, incluindo a capital Recife.
Já Barachinha vem desempenhando a função de mestre do maracatu desde 1993, primeiro no Leão Formoso e, posteriormente, no Estrela Brilhante, onde está até hoje. “Nunca vi um casamento para dar tão certo como o do Barachinha e Estrela Brilhante”, comentou, sobre a relação que mantém com o grupo.
Quando questionado pela platéia sobre o tipo de cantoria que entoa durante os ensaios do maracatu – no baque solto existem vários estilos, entre eles o samba comprido (10 versos) –, ele afirmou que só canta samba de 10. Mas há os que cantam o chamado “samba solto”, isto é, a cantoria que não possui um limite de versos definido e cuja conclusão depende inteiramente da vontade e do fôlego do mestre. Para Barachinha, quem opta por esse tipo de samba “livre” leva vantagem em relação aos outros que aderem à cantoria com limite de versos, já que estes, ao final de cada entoada, têm que reservar um momento para as outras vozes do maracatu entrarem no canto. No entanto, ele provoca: “Mas quem sabe cantar solto, não sabe cantar samba de dez”.
Sobre a importância de Siba para conferir maior visibilidade aos maracatus da Zona da Mata, Barachinha disse que ele serve de incentivo para os mestres dos outros grupos. “Gerou uma motivação pra gente, pois vemos que se nos organizarmos, podemos chegar lá também”, afirmou.
Manuel Salustiano, que já tem o maracatu correndo nas veias, partilhou da mesma opinião: “Quem se organiza, cresce!”. Para ele, a sobrevivência e o crescimento desses grupos estão atrelados ao poder de organização dos mesmos. Ele lembrou que no 1 º Encontro de Maracatus de Baque Solto, realizado em 1990, não apareceu nenhum, bem como não houve nenhuma contribuição financeira. Já no último, ocorrido no ano passado, foram 105 grupos participantes, tendo o menor deles cerca de 40 integrantes.
O crescimento do baque solto, segundo Manuelzinho, pode ser visto na própria mídia e nas propagandas referentes à Pernambuco. “Antes era a terra do frevo, depois virou também a terra dos maracatus, mas as imagens eram apenas de reis e rainhas do nação. Agora, toda foto tem um caboclo de lança. A barreira que existia para o maracatu de baque solto está se quebrando”, analisou.
CONTINUAÇÃO – Na próxima quinta-feira (12), será a vez dos 'Clubes de Frevo e Troças Carnavalescas' serem o tema da discussão entre Carlos Orlando, presidente da troça Cachorro do Homem do Miúdo, de Olinda; Álvaro Luís, presidente do clube das Pás Douradas, do Recife; Marcos Salles, presidente do Ceroulas, também de Olinda; e Marcelo Varela, integrante dos Círculos Culturais da Fundação de Cultura da Cidade do Recife. O debate será mediado por Quiercles Santana, diretor de teatro e produtor cultural. Na semana seguinte, também na terça (17) e na quinta-feira (19) haverá debates sobre caboclinhos e ursos e bois de Carnaval, respectivamente.
SERVIÇO
Ciclo de palestras Entendendo o Carnaval
Local: Teatro Arraial, Rua da Aurora, 457, Boa Vista
Horário: 19h
Entrada Franca
PROGRAMAÇÃO
12/03
Tema: 'Clubes de Frevo e Troças Carnavalescas'
Debatedores: Carlos Orlando (presidente da troça Cachorro do Homem do Miúdo, de Olinda); Álvaro Luís (presidente do Clube das Pás Douradas, do Recife); Marcos Salles (presidente do Ceroulas, de Olinda); e Marcelo Varela (integrante dos Círculos Culturais da Fundação de Cultura da Cidade do Recife).
Mediação: Quiercles Santana (diretor de teatro e produtor cultural)
17/03
Tema: 'Caboclinhos”
Debatedores: Paulinho (Caboclinho Sete Flexas); Roberto Benjamin (presidente da Associação Pernambucana de Folclore); e Dona Juracy (presidente do Caboclinho Canindé).
Mediação: Carlos Carvalho (diretor de Políticas Culturais da Fundarpe)
19/03
Tema: 'Ursos e Bois de Carnaval'
Debatedores: Manoel Mirim (Boi Mirim de Aliança); Maria Cristina de Andrade (Urso Cangaçá); e Aelson da Hora (Boi Faceiro)
Mediação: Quiercles Santana (diretor de teatro e produtor cultural)
Sistema de Origem
PENC
Coletivo
subtitulo
Terceiro encontro da série Entendendo Carnaval reuniu mestres de maracatus rurais. Evento contou ainda com exibição do documentário “O brincante Salu”
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Débora Duque
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