Miniatura

Descrição
A discrepância entre a cultura popular e o sistema regular de ensino no Brasil ficou um pouco mais evidente em debate nesta quinta-feira (8), no Teatro Francisco Nunes, dentro da programação do Seminário Internacional Saberes Vivos da TEIA 2007. Antropólogo, professor universitário e fundador do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), Tião Rocha roubou a cena ao falar abertamente da falência do sistema regular de ensino brasileiro e de como ele deixou 25 anos de magistério universitário (nas universidades Federal de Ouro Preto e Católica de Minas) para se tornar um educador popular no sertão mineiro do Vale do Jequitinhonha. Com Tião Rocha, compuseram a mesa Candace Slater, da Universidade de Berkeley, na Califórnia (EUA), Severino Vicente, da UFPE, e Jaqueline Moll, representante do Ministério da Educação e mediadora do debate "Escolas e Pontos de Cultura: Novas Experiências de Educação e Cultura".
Tião Rocha falou logo depois da norte-americana Candace, que abordou as possibilidades de intercâmbio cultural entre o Brasil e os Estados Unidos e a experiência dela em visita a vários Pontos de Cultura no país. Para a professora norte-americana, os Pontos de Cultura brasileiros tendem a crescer em importância social se aumentarem o diálogo com suas respectivas comunidades e a integração entre os próprios pontos. Severino abordou esse trabalho de integração de PC e escola em Pernambuco. Mas a fala de maior impacto do debate foi mesmo de Tião Viana, figura que cativou o público tanto com seu jeitão brejeiro (só tirou o chapéu para receber aplausos) quanto pelo discurso nada escolástico e até irônico. "Sou antropólogo por formação e educador popular por opção política, folclorista por necessidade, mineiro por sorte e atleticano por sina", disse Tião logo na abertura de sua intervenção, a última da mesa, antes do debate com o público.
Seguidor assumido do educador Paulo Freire (1921-1997), Tião (o apelido, segundo ele, é Sebastião) Rocha chegou a cunhar o verbo "paulofreirear" durante sua preleção que procurou o tempo todo diferenciar "educação" de "escolarização" e repassar o histórico dele na criação de uma forma diferente de promover a educação. Tião mexeu com os brios dos professores presentes no auditório ao expor o questionamento a partir do qual nasceu o Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), uma organização criada por ele para promover a educação popular e já presente em várias cidades brasileiras e no exterior (há experiências em Angola).
"Será possível fazer uma escola debaixo de um pé de manga?", perguntou, em meio à descrição de como nasceram as primeiras atividades do CPCD na cidade de Araçuaí, na região do Vale do Jequitinhonha, no Norte de Minas Gerais. "E a resposta a essa pergunta nós temos tido até hoje com um sonoro sim, é possível fazer uma boa educação sem escola formal. O que não é possível é fazer boa educação sem educadores, educadores de verdade, não professores. E esses caras [os educadores] não são formados pelas universidades", disse Tião Rocha. "Os meninos hoje têm quatro aulas de matemática e quatro de gramática, mas não sabem ler a vida e não sabem se ler na vida", completou ele, criticando o caráter burocrático e socialmente contraproducente do sistema regular de ensino atualmente. "É um saber morto, um currículo que tem 500 anos e é o fracasso social que conhecemos. E o problema maior é que todo mundo fala em investir em educação, mas ninguém propõe a reforma dela".
Para ele, a cultura entra nesse ambiente não como um apêndice, mas como "matéria-prima de educação e desenvolvimento". Segundo Rocha, o termo cultura tem sido usado indiscriminadamente, inclusive como "terceirização de desculpas". "Quando alguém quer dizer que uma coisa é muito difícil de resolver fala que é algo cultural", disse o pedagogo em tom irônico. Uma das experiências mais marcantes do CPCD, relatou Tião Viana, foi a construção de um cinema em Araçuaí a partir do trabalho das próprias crianças e jovens participantes do projeto, que virou inclusive um Ponto de Cultura.
"Eles gravaram um disco que acabou rendendo R$ 40 mil que foram repassados para a construção do espaço. Mas este ainda não foi para o projeto, assegurou Rocha, a melhor meta cumprida. "Nossa melhor meta é não perder crianças para o corte da cana". Segundo Rocha, apenas 10 crianças deixaram o projeto, mas seis deles foram para uma escola de música e os outros quatro passaram a integrar a Escola do Balé Bolshoi, de Joinville, em Santa Catarina. Ao final, Jaqueline Moll (do Ministério da Educação) abriu o debate para o público falando da necessidade de transformação da realidade escolar brasileira. "A escola precisa urgente encontrar o pé de manga e os pontos de cultura podem ser um instrumento de pressão para que essa mudança ocorra", destacou.
Sistema de Origem
Iteia
Coletivo
subtitulo
Antropólogo, professor universitário e fundador do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento defende o valor de se fazer uma boa educação sem a escola formal.
assinatura
Edson Wander – Especial para o 100canais
foto_credito
Élcio Paraíso
home
0
secao
0




