Descrição
Guardar histórias na memória e contá-las por várias gerações. Numa definição bem resumida, é esta a missão de um “griô”, nome inspirado na figura do velho ancião das tribos africanas, dos quilombos ou das aldeias indígenas, que, bem mais do que “causos” e histórias, guarda a memória cultural de seu povo. Na visão de Tierno Bokar Salif, mestre africano da tradição oral, “a escrita é uma coisa, e o saber outra”, e “a escrita é a fotografia do saber, mas não o saber em si”.
Não demorou para que o antigo método de circulação de saberes chamasse a atenção de educadores, que perceberam haver ali um bocado a aprender. Surgia então a inspiração para a pedagogia Griô, cuja origem se mistura com a do Ponto de Cultura Grãos de Luz e Griô, em Lençóis (BA).
Ali é realizado, desde 1997, um trabalho de fortalecimento da identidade cultural com famílias carentes da periferia baiana por meio da tradição oral. Dessa experiência e da metodologia aplicada por eles surgiu, em 2006, outra iniciativa, a Ação Griô Nacional, dentro do programa Cultura Viva, do Ministério da Cultura (MinC) – hoje Pontão de Cultura que articula ações junto a associações quilombolas, indígenas e grupos de educação e cultura em todo o país.
Os avanços do projeto e as histórias desses mestres da cultura popular poderão ser conhecidos durante o 5º Encontro Regional da Ação Griô Nacional, que acontece entre os dias 5 e 7 de outubro na cidade alagoana de Piaçabuçu. Sete Pontos de Cultura de Alagoas, Pernambuco e Rio Grande do Norte participarão do evento, que pretende estimular a elaboração e a sistematização de uma pedagogia que consiga inserir a transmissão oral dentro do currículo escolar.
Segundo a educadora Lílian Pacheco, criadora da Pedagogia Griô e coordenadora do Pontão, a rede que compõe o projeto, composta atualmente por 50 Pontos de Cultura espalhados por todo o país, terá também um ambiente para troca de experiências e diálogos sobre as técnicas em desenvolvimento, que pode variar conforme a região.
A figura dos velhos griôs é a fonte de inspiração, diz a educadora, mas a metodologia se adapta à realidade local de cada comunidade. “Certas linguagens funcionam bem no quilombo, mas se for na aldeia indígena ou no centro urbano precisa ser diferente”. Em comum, a busca por colocar histórias reais da vida no centro das atenções. “É uma forma transdisciplinar de educação”, afirma.
Autora do livro “Pedagogia Griô: a reinvenção da vida”, Pacheco explica que o currículo escolar convencional não alcança a vida de fato. “É preciso colocar mobilidade na escola, por meio da arte, do canto e do resgate da ritualização do ensinar e aprender”.
Entre as ferramentas utilizadas no processo, ela destaca a capoeira. “É uma tradição passada oralmente de geração em geração, depositária de um saber desenvolvido ao longo de anos”. Na metodologia pedagógica dos griôs, a capoeira pode ser usada para estudar corpo e ritmo, observa a educadora.
Para reforçar sua tese, a educadora questiona a forma como, ainda hoje, é contada a história do Brasil. “O negro nos livros didáticos é apenas uma figura folclórica, é o escravo sofrendo no tronco, mas tem muito mais pra contar”. Ela acrescenta que oficinas artesanais, espetáculos teatrais, rodas de prosa, danças e histórias podem fazer o que a escola não tem conseguido, ou seja, ensinar de verdade. “Aprender pode ser por meio do lúdico, da paixão e da alegria”.
Resgate da identidade
Viabilizar políticas públicas que preservem e valorizem a tradição oral é uma das preocupações do Ministério da Cultura, ressalta Raquel Nascimento, coordenadora do projeto Escola Viva, ação do programa Cultura Viva, do MinC, e do encontro da Ação Griô. “Queremos o fortalecimento da identidade de crianças, adolescentes e jovens vinculado-os à sua cultura original”.
O evento, de acordo com a coordenadora, é fruto da nova forma de gestão compartilhada proposta pelo ministério. Em miúdos, os pontos de cultura decidem o que fazer com os recursos injetados neles. A percepção de que não havia no programa Cultura Viva uma ação que contemplasse memória e identidade cultural também colaborou, destaca Nascimento.
“A partir do conhecimento do trabalho desta instituição, o MinC resolveu transformá-lo em Pontão para que pudesse disseminar a Pedagogia Griô”. Ela conta que é uma forma de estimular a discussão entre todos os pontos que trabalham com a memória e com a tradição oral em rede.
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5º Encontro Regional da Ação Griô Nacional, que acontece de 5 a 7 de outubro na cidade alagoana de Piaçabuçu, vai debater novos rumos para a educação inspirados nos velhos contadores de história.
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