Descrição
Há menos de um ano a dança perdeu um de seus mais criativos artistas, o tcheco Zdenek Hampl. Inventiva, irreverente, e principalmente renovadora, sua obra repercute em vários cenários, entre eles o Recife, onde o coreógrafo atuou e morou nos últimos 25 anos. Suas idéias, no entanto, continuam vivas, através das pessoas que com ele conviveram, e agora nas páginas do livro Constante movimento. Editado pela Associação Reviva, com recursos do Funcultura, o título será lançado hoje, em evento que conta com projeção de vídeos (Reino de pedra, de Lenice Queiroga, Rec Poa, de Robson Duarte, fotografias de Breno Laprovítera, e trechos de espetáculos do Acervo Recordança), e a presença da viúva do artista, Márcia Rocha, e o filho Daniel Hampl.
Zdenek Hampl adotou o Brasil como segunda pátria a partir dos 24 anos. Nos anos 70, participou ativamente da vida cultural do Rio de Janeiro, ao participar de programas da Rede Globo e coreografar a peça Calabar, de ChicoBuarque e Ruy Gerra. Em 1982 se mudou para o Recife, onde contribuiu para a estruturação da 'cena': produziu espetáculos, participou da formação da Cia dos Homens e da fundação da Associação de Dança do Recife. Em 1994, uma matéria publicada neste Diario de Pernambuco considerou Zdenek o 'coreógrafo que mudou o conceito de dança contemporânea em Pernambuco'.
Constante movimento foi escrito à mão em 2005, quando um tratamento médico forçou Zdenek a permanecer em casa. 'Ele sempre escreveu, e muito bem. Fazia algum tempo que as pessoas pediam um livro sobre suas idéias e caminhos de criação, e essa foi a oportunidade', lembra Márcia Rocha, viúva do coreógrafo. 'Ele escreveu tudo em três meses', lembra Márcia, que acompanhou todo o processo, como companheira afetiva, e também como interlocutora. O resultado é um texto fluido, coloquial, descontraído, guiado não pela cronologia ou academicismos, mas, antes de tudo, pelo prazer de expressar seu efusivo e inquieto pensamento.
Não bastasse reforçar com o frágil catálogo de títulos em língua portuguesa, Constante movimento é a primeira publicação de um coreógrafo com atuação no Recife. 'O diálogo sobre dança geralmente é freado porque há pouco material sobre os grupos que já existiram e sobre o que os coreógrafos fizeram. Muito da importância desse livro é convidar as pessoas a dialogar com a história. Esse é seu grande recado: é possível discutir dança, propor experiências, e continuar a conversa depois da leitura', avalia a produtora Valéria Vicente.
O processo coletivo de edição contou com Márcia, Valéria, e os filhos do coreógrafo, Vera e Daniel. 'A idéia era abolir os intermediadores, para dar proeminência à voz do Zdenek e deixar que as pessoas tirassem suas próprias conclusões sobre o que ele diz', revela Valéria. A revisão inteligente da amiga e escritora Adriana Falcão preservou os erros de português, conforme o o desejo do próprio autor: 'não é falta de respeito com a língua, mas não quero disfarçar, negar que sou gringo', escreve o autor. Outro atrativo é o projeto gráfico de Moacyr Campello, que ousa iniciar o texto logo na capa - um provocativo convite a explorar um universo de idéias em movimento.
Serviço
Constante Movimento, de Zdenek Hampl
Quando: Hoje, às 19h
Onde: Auditório da Livraria Cultura - Paço Alfândega)
Quanto: entrada franca para o evento;
o livro custa R$ 20
Trecho do livro
'Escrever sobre a história da dança, não vou. Não que fosse desinteressante imaginar que nossos ancestrais dançaram imitando os animais para garantir uma boa caça, ou, os mais herbívoros, uma boa colheita. Mas seria outro tipo de livro. E tem mais: basta ligar o computador, e está tudo lá. Então para quê eu vou ter que lembrar a data do nascimento de Nureyev? Outra coisa: nada de material didático. Sabe aqueles verdadeiros 'manuais' com uns desenhos ridículos que mostram, até com contagem do tempo, como se sentar ou se levantar em 4 tempos? Ou os estudiosos que sabem a diferença entre a tíbia e o septo nasal? Muito obrigado, mas podem ficar com as conclusões dos seus tão exaustivos estudos e pesquisas. Eu prefiro os caminhos mais fáceis: qualquer jogador de futebol, por mais semi-analfabeto que seja, sabe muito bem onde fica a tíbia, depois de levar um belo pontapé nela. Ui, ui'
FONTE: Diario de Pernambuco, caderno Viver, dia 11 de setembro de 2008
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André Dib
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