Descrição
“Uma rede não tem centro, cada nó é um centro”, afirma Antonio Carlos dos Santos Silva, ou o TC – como é mais conhecido – um dos fundadores da Casa de Cultura Tainã, ponto de cultura em Campinas, onde há cinco anos foi criada a rede Mocambos, responsável por informatizar e conectar quilombos em todo o país. Ele fala do conceito sobre rede para explicar o objetivo de seu trabalho. “Precisávamos de canais de comunicação e de intercâmbio, mas dentro de um ambiente de trocas não centralizado”.
TC conhece bem a realidade dos quilombolas. Durante a infância viveu entre eles, em Uberaba (MG). Dessa convivência resgatou os valores que norteiam sua caminhada até hoje, sobretudo a experiência colaborativa. “É a cultura do compartilhar, todo mundo cuida de todo mundo”, diz. Ele cita o exemplo do roçado coletivo. “Cada um tinha a sua roça, mas todos ajudavam e depois dividiam a produção”.
O valor da colaboração mútua foi a maior lição que herdou, conta. Do aprendizado brotou a idéia de reconectar as comunidades que ainda trazem esses valores. Assim começou a rede Mocambos – uma “missão” que ele considera urgente. “Muitos desses grupos remanescentes se encontram em situação de risco”, adverte.
A expansão das áreas agrícolas, o crescimento da plantação de eucalipto, cana, soja, o avanço da extração de madeira e das atividades de mineração são alguns obstáculos que os quilombolas ainda precisam enfrentar. “A criação de uma rede interligando-os se justifica, sobretudo, para que se fortaleçam e lutem pela defesa de seus direitos”, explica TC.
Refúgio digital
O nome do projeto é bem apropriado. Mocambo eram os esconderijos onde se refugiavam os escravos em busca de liberdade. Depois passou a denominar, assim como os quilombos, os aglomerados de casas que iam se espalhando. Mas no caso da rede criada pela Casa Tainã, na prática, o que representa fazer parte dela? – pergunto a TC. “Potencializar o acesso ao mundo digital porque, embora muitos não percebam, estamos todos inseridos dentro de um universo digitalizado”, responde ele.
Convênios e parcerias com os ministérios da Cultura e das Comunicações, Banco do Brasil, entre outros, permitiram que a idéia avançasse. A rede, que era composta por apenas quatro entidades, hoje abarca aproximadamente quinze quilombos e dezessete associações culturais de afro-descendentes. Mas eles pensam em ir além da inclusão digital.
“Queremos discutir com o governo políticas para o desenvolvimento dessas comunidades”. Não basta apenas ter acesso às ferramentas tecnológicas, prossegue, é preciso uma consciência maior do uso delas. “Se você não sabe porque usa, se torna um usuário passivo, como ocorre nos centros urbanos”.
O exemplo da Casa de Cultura Tainã mostra que o processo em execução nos Pontos de Cultura pode ser uma via de duas mãos. Ao passo que disponibiliza recursos para as diversas ações em curso, abre espaço para a busca de novos horizontes. “Desenvolvemos um projeto que foi aproveitado como referência pelo Ministério da Cultura para implementação do programa Cultura Viva”.
Vozes do quilombo
A rede Mocambos acaba de dar vida a outro importante canal de comunicação para a população quilombola. Já está em circulação a primeira edição impressa do jornal “Macaia Mulungo”. O nome é um toque sutil de que eles querem ser ouvidos. Macaia eram os terreiros onde antigamente se tocava tambor, e mulungo é uma árvore que geralmente protegia o lugar.
Conseqüência do processo de agrupamento da população de remanescentes afro-brasileiros, a idéia da publicação acabou surgindo em um encontro “sui generis”, chamado “pajelança quilombólica digital”, realizado em julho deste ano, também na Casa de Cultura Tainã. Segundo TC, o evento é um espaço para “incorporação da diversidade cultural” e, por isso, é natural que o jornal tenha nascido ali, diz ele. “Queremos potencializar as diferenças, mas otimizando o intercâmbio”.
O pequeno tablóide surge alinhado a todo o universo de propostas e ações da rede. Ou seja, é mais um meio de produzir conteúdo próprio a partir das ferramentas que estão sendo disponibilizadas. “Todo o conteúdo foi feito coletivamente dentro de uma oficina onde também recuperamos 55 computadores e aprendemos a montar transmissores de rádio”. E não para por aí, a rádio Mocambo, segundo informa TC, está a caminho.
Sistema de Origem
Iteia
Coletivo
subtitulo
Projeto foi criado há 5 anos na Casa de Cultura Tainã, em Campinas, que informatiza e conecta quilombos. A última iniciativa é a circulação a primeira edição imprensa do jornal Macaia Mulungo.
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Carlos Minuano – 100canais
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