Descrição
Às vésperas da TEIA 2007, esta reportagem buscou ouvir de alguns dos participantes da Mostra Arte Viva, em sua modalidade Manifestações das Culturas Populares, o que será apresentado por eles em Belo Horizonte, e o que significa participar da TEIA.
Entendida por seus organizadores como um grande encontro entre artistas e criadores de diversas regiões do país através da transversalidade e da interação entre as várias linguagens que emergem da produção dos Pontos de Cultura (PC), a Mostra prevê a participação de 85 projetos, 13 nesta modalidade, a grande maioria vinda de Estados da região Sudeste e Nordeste.
Culturas Populares dos anfitriões
Entre os projetos mineiros que serão apresentados dentro desta modalidade, ouvimos o projeto Calangueiros de São José das Três Ilhas, do PC São José das Culturas, o projeto Tambores de Paracatu, do PC Centro Cultural Conscieciarte, e o projeto Apresentação de Viola de Música de Raiz, do PC Centro de Cultura Popular e Folclore de Viçosa.
O projeto do vilarejo de São José das Três Ilhas apresentará uma roda de Calango, uma manifestação musical e poética de origem sertaneja. De origem afro-brasileira, a manifestação é feita de versos cantados no improviso, em várias linhas de rimas pobres. As linhas, como explica Flávio Cândido, o produtor deste projeto, são palavras, geralmente elementos da cultura local, como bichos ou pessoas famosas, com quem os calangueiros têm de rimar seus versos.
No Calango são dois participantes, e inúmeras linhas, se desenvolvendo de forma muito semelhante ao repente nordestino. Era o ritmo que animava os bailes caipiras na região que vai da zona da mata mineira até o norte do Vale do Paraíba paulista. Cândido conta ainda que as bandas eram compostas por um sanfoneiro, um marcador de percussão no surdo, um pandeiro e um cantador, que vão girando em torno da pista de dança, noite afora. O baile desapareceu, mas o calango se manteve, de forma espontânea. Continuaram os cantadores, mas quase envergonhados, pois o calangueiro tem a fama, injusta, de brigão.
Dentro do festival local, promovido pelo PC, em 2006, foi realizado um concurso de calangos. Na primeira noite vieram três calangueiros, na segunda dois, e diversos no domingo, última noite do festival. A partir disso, o Ponto foi identificando os melhores músicos, ritmistas e cantadores, fixados em três no grupo de apresentação – dois mais jovens, na faixa dos 20 anos, e um veterano, conhecido como tio Alcides – Alcides, inclusive, o possível mestre para as oficinas, que se pretende realizar em 2008, para formação de jovens calangueiros entre as crianças.
Para a apresentação da TEIA 2007, o esforço é para os cantadores não se animarem demais, e saírem a rimar histórias Mostra afora. O grupo está formatando uma apresentação de trinta minutos, com seis linhas de versos, até um primeiro esforço de profissionalização, conta Cândido. Para a mostra, o produtor diz que os calangueiros “estão enlouquecidos, eles não esperavam isso, pois o calango era algo que não tinha valor aqui. Vamos apresentar um ritmo só, com apenas seis linhas, mas depois, se bobear, rola até um baile caipira por lá depois”.
O projeto Tambores de Paracatu, por sua vez, trará essa manifestação de maracatu, uma dança da cultura negra, que vem desaparecendo. Munidos de tambores e vestes tradicionais, os participantes tocam e dançam em cortejos ou espaços fixos.
Para Leci Guimarães, Diretora Pedagógica da fundação que é base para o PC, classificar o projeto como Culturas Populares é uma forma de resgatar a valorização da diversidade cultural do país, inclusive dando à população subsídios para se posicionar e intervir nas decisões públicas sobre o fazer cultural local. “Para o grupo, a Mostra possibilitará a visibilidade necessária para o PC, agregando um maior reconhecimento e valorização tanto da comunidade local como externa. Paracatu é uma cidade que possui quatro comunidades quilombolas, porém a comunidade local não valoriza suficientemente a história que gira em torno da cidade e, conseqüentemente, suas danças e manifestações também são pouco valorizadas”, nos conta Guimarães.
O projeto de Viçosa, por sua vez, consiste no resgate, incentivo e pesquisa da cultura popular e do folclore da cidade, manifestada através da música de raiz e de um grupo de viola mirim com 68 componentes, parte de uma oficina maior, realizada junto com um parceiro privado, dos quais oito irão ao encontro, junto de um mestre Griô. Virgínia Moura, coordenadora do PC, nos conta que a Mostra representa para o Ponto uma grande oportunidade de apresentar o trabalho desenvolvido em Viçosa.
Paulistas e cariocas
Conversamos ainda com os representantes de um projeto paulista, o “Caiçaras de Cananéia - O encontro entre ‘antigos’ e ‘jovens’ nas cantorias do fandango”, do PC Projeto Vivendo Arte e Cultura, e o projeto Auto Natalino do Grupo Brincantes da Vila Vintém Roda Mundo, do PC Arte Ponto a Ponto em Padre Miguel, do Rio de Janeiro.
O projeto de Cananéia, no litoral paulista, busca valorizar o Fandango, forma como os caiçaras comemoravam os ajuntórios ou mutirões de trabalho cooperativo na Mata Atlântica. Um dia de trabalho nas roças, por exemplo, era retribuído aos camaradas com uma festa com muita música, comida e bebida, de forma semelhante aos mutirões. Fernando Oliveira, coordenador de educação e cultura do PC, diz que a idéia é revisitar a memória caiçara e tentar aos poucos registrar e disseminar a tradição do Fandango, através de CD’s, DVD’s, livros, documentários e outras mídais. O projeto conta ainda com o apoio do programa Ação Griô, que permitiu a aproximação entre os mestres e os jovens da comunidade, e a realização de apresentações em alguns palcos paulistas.
Para Oliveira, classificar como “Cultura Popular” esta manifestação da cultura caiçara significa dar visibilidade a sua tradicão, que está relacionada diretamente ao uso da terra e, por conseqüência, aos problemas fundiários relacionados ao estabelecimento de Unidades de Conservação e à expropriação e especulação imobiliária. Quanto ao significado da Mostra para os que vão, Oliveira comenta que “Na verdade, acho que pessoal daqui não tem idéia do que vão encontrar em BH. Já falamos várias vezes que se trata de um baita encontro, mas não creio que eles tenham a dimensão exata do evento”.
Os cariocas, por sua vez, trarão uma adaptação de um Auto de natal, manifestação do Teatro Popular que se desenvolveu na Europa, ainda nos primórdios da língua portuguesa. Multidisciplinar, o projeto proponente busca formar jovens para a gestão de projetos e iniciativas culturais, com aulas de dança e música, indo do jongo e do ciriá ao hip-hop, refletidas na tradição que envolve o Auto.
O Auto do Brincantes trata de passagens da vida de Jesus Cristo, e foi definida por Rosângela Alves, gerente do projeto, como um cortejo musical com intervenções cênicas, que une dança afro, declamação e encenação a passagens como a crucificação, a vida e o nascimento, nesta ordem, terminando em um samba de roda, tradicional da comunidade, berço da escola de samba Mocidade Independente. Alves conta ainda que os jovens receberam muito bem a idéia de ir para BH e conhecer outros trabalhos de PCs de todo o Brasil.
Nordestinos e sulistas
Os dois últimos grupos com os quais conversamos, o projeto Roda de São Gonçalo de São Gabriel – Bahia, do PC Viver com Arte, e Preservação do Patrimônio Material e Imaterial da Cultura Cigana, do PC Construção da Casa da Cultura de Florianópolis são representantes, respectivamente, do Nordeste e do Sul do país.
O projeto de São Gabriel reflete uma manifestação que há décadas vem se desenvolvendo. Com referência na estrutura familiar e, sendo passado de geração em geração, tem como matriarca Dona Adilina, uma agricultora familiar, hoje com 80 anos. É uma dança típica dos ribeirinhos e moradores do entorno da bacia do São Francisco e afluentes.
Para Márcio Moura, coordenador do Ponto, a expectativa é que o São Gonçalo de São Gabriel possa contribuir com a TEIA 2007 “mostrando ao País que a verdadeira cultura está viva, e sendo desenvolvida por pessoas do povo, cidadãos comuns, simples, porém com muita disposição para continuar cultivando seus valores e sua identidade cultural”. Moura entende também que a classificação do São Gonçalo de São Gabriel como cultura popular na Mostra é prova do reconhecimento da importância desta manifestação para a cultura brasileira, representando ainda uma grande mostra de respeito por essa manifestação, e completa: “Podemos, no entanto, dizer que ao sermos classificados como cultura popular para um evento desta magnitude, por uma comissão composta por pessoas que vivem, pesquisam e têm compromisso com as manifestações culturais do nosso povo, é antes de tudo uma decisão política conceitual, de grande profundidade, pois coloca na agenda da cultura brasileira aspectos culturais em processo de extinção”.
Os sulistas do projeto Preservação do Patrimônio Material e Imaterial da Cultura Cigana apresentarão um número de dança cigana, oriunda das oficinas que realizam em seu Ponto. Para a produtora Antonia Teixeira, esta apresentação é também uma forma de o povo cigano chamar atenção para todos os problemas que envolvem seu dia-a-dia, como a dificuldade para ter documentos e acesso aos serviços de educação e saúde. “O MinC, pela primeira vez na vida, está reconhecendo a Cultura Cigana, tanto que desenvolve um GT para discutir políticas públicas para este povo. Cada um dos mestres que morre é como se uma biblioteca se perdesse, e isso é uma preocupação para eles. Hoje nosso medo é que estas políticas não tenham continuidade, quando houver uma mudança de governo”, diz Teixeira. O Ponto, que aprovou dois projetos na Mostra, levará ao todo 12 participantes para BH.
A apresentação será do grupo de dança cigana Opre Romale, que busca divulgar esta cultura através de suas apresentações. De acordo com Lourenço Ferraz, fundador do grupo, coreógrafo e divulgador da cultura cigana, embora não-cigano, será levada a dança dos quatro elementos, manifestação típica que utiliza da simbologia dos quatro elementos, representados por objetos: o pandeiro (o fogo), a rosa (a terra), o leque (o vento) e o xale (a água), usadas nas coreografias, que refletem a origem livre e técnica desta manifestação.
Outros selecionados
Além dos sete projetos que abordamos, outros seis participarão da Mostra Arte Viva. São eles: Do sudeste: Catira, do PC Rede de Pontos de Cultura de Guarulhos, e Jongo da Serrinha, do PC Escola de Jongo – Serrinha, e Terno dos Temerosos, do PC Música e Artesanato: Cultura Tradicional no Norte de Minas; Do Nordeste: Guerreiro Barreira Pesada, do PC Chã de Folguedos, e Pagode do Mimbó, do PC Implantação do Núcleo de Difusão Cultural do Médio Parnaíba; Do Centro-oeste: ManiFestiSesi, do Pontão de Cultura Escola Viva.
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Mostra Arte Viva da TEIA 2007 apresentará dança, jogos e teatro tradicionais na modalidade Manifestações das Culturas Populares.
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