Descrição
A relação entre a diversidade cultural, a economia criativa e a inclusão destes temas na agenda da educação foi a pauta do debate travado, na tarde deste sábado (10), pelo professor Paul Singer, da USP e hoje responsável pela Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes), e o professor e antropólogo José Márcio Barros, da PUC-MG. A mediação foi feita por Sérgio Mamberti, secretário da Identidade e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura (MinC).
Foi consenso, embora não detalhado, que a questão cultural é central para a discussão da escola hoje no país, noção presente em diversos outros espaços do Seminário Saberes Vivos e da TEIA 2007. Para Singer, nossa educação atual é contrária à diversidade, ao desconsiderar o conhecimento do aluno como fator componente do processo pedagógico. “Essa atitude é o contrário do que vivemos (com a lógica da Economia Solidária) e o que precisamos. Hoje é necessária uma escola baseada na pedagogia de Paulo Freire, com a lógica de que ninguém ensina nada a ninguém, mas todos aprendem juntos, trocando visões históricas distintas, em especial educador e educandos”. Só assim, afirmou Singer, a escola pode tornar-se um espaço democrático.
O professor de Economia falou ainda sobre como se desenvolveu, historicamente, a conceituação da Diversidade Cultural. Dando importância central ao tema, fez menção principalmente à ascensão e derrocada do nazismo. A ferida aberta naquele momento (pessoal inclusive, por ser Singer um judeu oriundo da Áustria, em 1940) foi responsável, porém, pela valorização dos diferentes saberes e formas de viver no mundo, que surgiram e se desenvolveram com a ONU e a Unesco e desaguaram na revolução cultural e nas lutas contra o racismo na década de 1960.
Ao falar da Economia Solidária, Singer conceituou-a como “uma forma de criar e trocar mercado, solidariedade, conhecimento e afeto”, indo além da mera alternativa como produção de mercadorias. Exemplos são as redes de troca, estabelecidas primeiro no Canadá e na Argentina (e auxiliares na sobrevivência de cerca de 7 milhões de argentinos depois da crise de 2001), e as moedas solidárias, que se erguem como alternativas à falta de crédito padrão.
Além de expressar a importância de figuras como Muhammad Yunus, prêmio Nobel da Paz em 2006 e fundador do banco Grameen Bank, de microcrédito, Singer citou ainda como destaque o Brasil. O país, além de ter grande quantidade de iniciativas (algumas presentes nesta TEIA, na IV feira Mineira de Economia Solidária), criou as incubadoras de cooperativas populares, hoje 43 somente em universidades, com expansão prevista para 80 em 2008, e os bancos comunitários, hoje existentes em comunidades no Ceará e Espírito Santo, e prestes a se constituir em comunidades quilombolas do Maranhão, com apoio da Senaes. Sobre a questão, disse ainda que não há um modelo para uma alternativa viável na área, mas inovações e adaptações, dentro das quais é grande a importância de um trabalho conjunto entre os três eixos – Economia Solidária, diversidade cultural e educação.
Pequeno consumo
José Márcio Barros, da PUC-MG, fez em sua explanação o cruzamento de uma série de pesquisas sobre consumo cultural, Economia Solidária e noções de desenvolvimento social. O cerne de sua apresentação esteve no pequeno consumo, hoje, da Cultura, e na questão de que a própria diversidade cultural é em si complexa e diversa. Ao lidar com diversas divergências, contradições e opostos, ela gera desigualdades, tensões e conflitos, e por isso mesmo precisa ser construída. Chamou ainda atenção para a centralidade do desenvolvimento cultural na economia, por envolver desenvolvimento humano, natural, construído e social (os quatro pilares do desenvolvimento do Banco Mundial), e por seu caráter central para a promoção de uma noção de cooperação e desenvolvimento conjunto na sociedade, com o que se liga à noção de Economia Solidária.
O professor mineiro chamou atenção ainda para o fato de que a Economia Solidária é central para garantir o desenvolvimento cultural, posto que atua diminuindo desigualdades e articulando ações acerca do patrimônio cultural, natural, material e imaterial, consolidando um modelo democrático e de pluralismo cultural. Coloca que precisamos pensar, porém, qual Economia Solidária queremos e qual a cultura da Economia Solidária que se pretende alcançar, inclusive porque, fora a produção de artesanato, não há outras iniciativas de Economia Solidária que lidem com a Cultura.
Articulando as falas e na função de provocador, Mamberti afirmou que fica evidente o avanço, assim como as distâncias, convergências e desafios que aparecem neste momento do Programa Cultura Viva e da gestão do MinC. Defendeu ainda a importância da consolidação da Convenção sobre a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais, da Unesco, num contexto internacional de valorização da diversidade das expressões culturais, das economias locais e das iniciativas de alternativas econômicas à predação dos grandes centros econômicos sobre a Cultura dos países menos desenvolvidos, flagrante na questão do cinema.
Disse ainda que, nesse contexto, a TEIA tem um significado fundamental, e que os Pontos de Cultura precisam construir o contexto que assegurará seu desenvolvimento e o crescimento das relações solidárias dentro da sociedade, no tripé central que existe entre Educação, Comunicação e Cultura, aliados e entrecortados pela questão da Economia Solidária.
Em resposta à questão da platéia, criticando a política econômica conservadora da gestão Lula, Singer e Mamberti se solidarizaram com a expressão, concordando com o caráter apontado e com a insuficiência das mesmas para permitir uma gestão mais democrática, participativa e progressista. Mas chamaram atenção, porém, para as ações positivas realizadas neste meio tempo e para a reorganização da economia desde 2003, com perspectivas de melhora, ainda lentas para Singer, neste ano e nos próximos. Citaram ainda o interesse crescente do governo federal na questão da democratização cultural e do fomento à Economia Solidária. Mamberti respondeu ainda às críticas à estrutura dos meios de comunicação de massa no país, colocando-se favorável aos projetos da TV Brasil, à digitalização da TV e à definição de uma legislação para o setor.
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Ao falar da Economia Solidária, Paul Singer conceituou-a como “uma forma de criar e trocar mercado, solidariedade, conhecimento e afeto”, indo além da mera alternativa como produção de mercadorias.
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Guilherme Jeronymo – 100canais
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