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Descrição
O sítio do mestre de cavalo marinho Zé de Bibi, em Glória de Goitá, estava todo iluminado. Embaixo das luzes de tungstênio estendidas na rua como um varal, crianças brincavam em uma algazarra barulhenta. Na frente de suas casas, moradores conversavam enquanto entardecia com um sol morno. Bem ali, no terreiro, berço de manifestações da cultura popular, aconteceu, neste domingo (01), um encontro raro e precioso: mestres de cinco cavalos marinhos se reuniram para partilhar suas vivências e discutir o futuro do brinquedo popular característico da Zona da Mata Norte.
Dava para ver a alegria estampada naqueles rostos reunidos em semicírculo dentro da casa de farinha. Sem rivalidade, Borges de Lucas (Lagoa de Itaenga), João Psica (Feira Nova), Grimário (Aliança), Biu Alexandre (Condado) e Zé de Bibi (Glória de Goitá) contaram como mantêm sua brincadeira e, com respeito, atentaram para as diferenças e semelhanças entre si. Se num cavalo marinho o personagem se chama “liberá”, no outro é “soldado da gurita”. Cada um tem uma forma de fazer, mas todas elas são verdadeiras, concluíram.
Mestre Biu Alexandre começou a brincar aos 13 anos e, 56 anos depois, lembrou aos colegas o tempo em que se começava a brincar às 19h e só parava às 5h da manhã. “Hoje o pessoal não quer mais ir para os cavalos marinhos, quer ir para as bandas e os trios”, lamentou, ao lado do filho. Agnaldo, brincante há 36 anos também lembra com nostalgia o tempo em que o cavalo marinho acontecia nos engenhos e todo mundo só dançava por amor. “O interesse que os meninos novos têm é pouco. Quando não tem dinheiro o povo não quer mais tocar”, reclama.
O anfitrião Zé de Bibi compartilhou com os colegas o momento em que decidiu trocar os mamulengos pelo cavalo marinho, há 48 anos. “Era menos abafado e o povo vê a gente”, brinca, no bom-humor que lhe é característico. Confirmando a hereditariedade do brinquedo, ele conta que seus netos já são até melhores que ele e que, certamente, darão continuidade à tradição familiar.
“Se a gente não chamar a juventude, o brinquedo acaba”, concorda Borges de Lucas. Com olhos que não pararam de bilhar um instante, disse que, para ele, o cavalo marinho é como uma escola, onde se ensina desde pequeno. E é assim que ele faz. Na casa dele, vai nascendo um e já vai ganhando roupa para brincar. “Se o mestre não tem um filho para continuar, o brinquedo acaba”, conta o pai de quatro filhos brincantes.
Depois de mais de uma hora de conversa, Zé de Bibi estava satisfeito. “Acho que foi um papo bem feito” resumiu. Ao lado dele, Borges de Lucas completou. “Para mim foi a melhor festa poder encontrar com os mestres e dizer aquilo que a gente precisa. É bom ouvir dos outros para aprender mais”.
Enquanto Zé de Bibi preparava a sua brincadeira, Adiel Luna, representante da Fundarpe e um dos mediadores do encontro afirmou que percebeu na roda uma semente provocadora de reflexões. “Essa troca que aconteceu hoje traz também mais união para o brinquedo”. Osmar Barbalho da Associação dos Maracatus de Baque Solto de Pernambuco, também presente na mesa, avaliou que este segundo encontro de mestres de cavalo marinho vem para enaltecer a cultura da Mata Norte que é um celeiro cultural. “A ideia é que os mestres possam partilhar suas concepções. Mas o que a gente quer mesmo é criar circunstâncias para que eles se apresentem, especialmente, nos terreiros”, afirma.
Já era quando o banco formado pela rabeca, mineiro e ganzá começou as primeiras toadas. Os mestres entraram no círculo cercado por fitinhas coloridas e puseram em prática tudo aquilo sobre o que haviam falado. Com passos ágeis e levantando areia do chão Zé de Bibi puxou o “mergulhão” numa roda onde os mais velhos se misturavam às crianças. Aos poucos foram entrando em cena os personagens desta tradição que une música, dança e teatro. Entraram o capitão, o Caroca a Catirina, o Bastião. Entraram Zé de Bibi, Borges Lucas e João Psica. E assim foi até altas horas, como acontecia antigamente...
Sistema de Origem
PENC
Autor/a
Descrição
Eng. Eletrônico, Comunicador Popular, Músico nas horas vagas
Coletivo
subtitulo
Encontro realizada neste domingo (01) reuniu cinco mestres do brinquedo tradicional da Mata Norte
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Chico Ludermir
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Ricardo Moura
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Mestres do cavalo marinho se reuniram no sítio de Zé de Bibi
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Alan Tygel




